“A gente faz carro e não sabe guiar”

“A gente faz carro e não sabe guiar”

Lembra da Ultraje o Rigor? Se você curtia rock nacional nos anos 80, certamente se lembra sim. Um dos versos do hit “Inútil” era o título dessa coluna. Nada mais apropriado para designar o quanto brasileiro guia mal. Isso está relacionado com o despreparo nas “aulas” dadas pelos centros de formação de condutores ou mesmo pela ignorância do nosso povo em repetir alguns vícios no trânsito, sem nem questionar o porquê.

Quer ver alguns exemplos nos “outros”?

Motoqueiro, no Brasil, não usa o freio dianteiro. Alguns motociclistas até usam, mas nem todos. Prevalece a imbecilidade histórica – é até ensinado em moto-escola (!!!) Quer outra? Repare que a maior parte dos motociclistas continua subindo o giro do motor em reduções de marchas – isso ajudava a evitar o travamento da roda traseira em reduções bruscas –, mesmo em motos modernas, que possuem embreagens assistidas e deslizantes, que evitam automaticamente esse efeito. É como você ficar modulando o pedal de freio para evitar travamento… em um carro que tem ABS.

E que tal os motoristas de caminhão, que deixam o motor ligado por vários minutos em marcha-lenta? Você faz isso para encher os reservatórios de ar comprimido que serão usados para os freios. Mas essa é uma operação rápida. Mesmo assim, os caras deixam o motor ligado indefinidamente. E os que ainda fazem a dupla debreagem (usava no tempo do câmbio seco), mesmo após as engrenagens sincronizadas do câmbio terem sido adotadas há uns 145 anos?

Vejamos, agora, o que nós, motoristas de automóveis, continuamos errando. E eu vou só me fixar nas estradas, pois as minhas colunas já são longas e eu preciso por um fim no texto…

Um pouco de prosa… pra não chorar

O asfalto das rodovias brasileiras costuma ser o grande palco da nossa independência, mas também o cenário onde desfilamos alguns dos nossos piores (e mais perigosos) vícios ao volante. Quem acompanha a indústria e vive o setor automotivo sabe bem que o carro evoluiu — hoje temos pacotes de segurança eletrônica, frenagem autônoma e motores infinitamente mais potentes e eficientes.

O problema é que o “piloto” continua operando na base do achismo e da velha mania. O que era para ser uma viagem tranquila se transforma em um teste diário de paciência e sobrevivência. Abaixo, listei os oito hábitos mais detestáveis que nós, brasileiros, insistimos em manter quando pegamos a estrada.

Gasolina de caroço

Já reparou naqueles motoristas que ficam cutucando o acelerador como se estivessem na batida de um samba? Ele acelera e tira o pé. Acelera e tira o pé. Parece até que a gasolina tem caroço, pois o carro vai engasgando por quilômetros a fio. É um hábito tão errado quanto tolo. E eu nunca entendi a razão que leva o indivíduo a isso. Alguém explica?

O pescocinho torto

Tenho crises de gargalhadas quando vejo isso… Aprendi com o professor Bob Sharp. Estava no lançamento do Fiat Uno 1.6R no autódromo de Goiânia, quando tomei uma verdadeira aula de pilotagem do Bob, principalmente pra evitar o subesterço (era um Uno, né?) Eu era um “cavalo” ao volante, enquanto o tio Bob contornava o circuito pilotando suavemente. E era mais rápido. Foi “a aula”. Mas o que mais marcou foi a implicância dele com quem entorta o pescoço nas curvas.

— Carro de rua não dá mais do que 0,8 ou 0,9g de aceleração lateal em qualquer curva. Entortar o pescoço é frescura. E frescura de quem é ruim de volante! Mantenha-se ereto no banco e fim de papo.

Repare numa descida de serra. Quanto mais o cara da frente entortar o pescocinho, mais quadrada será a curva que ele estará fazendo.

segurança

O “colador” de para-choque

Acreditar que “colar” na traseira do carro da frente vai fazer o motorista mais lento evaporar é um clássico. Em rodovias, onde as velocidades são elevadas, isso elimina qualquer tempo de reação. A regra dos “dois segundos” passa longe do nosso vocabulário, transformando pequenas frenagens em colisões múltiplas.

Próxima fase: o costureiro

Como se fosse um Pokemón, alguns motoristas evoluem. De “coladores”, passam a “costureiros”. São aqueles que perderam a paciência em fazer as ultrapassagens pela faixa da esquerda e simplesmente começam a costurar no meio da estrada. Você nunca sabe se uma dessas manobras não pode assustar outro motorista que, intempestivamente, acaba metendo o pé no freio. E tá feita a m…

A faixa da esquerda como lounge

Já salientei aqui algumas vezes que houve uma diminuição significativa nas vendas de carros 1.0 no Brasil… mas os que sobraram têm circulado insistentemente pela Rodovia Castello Branco. Vou com certa frequência à Sorocaba (100 km da capital) e encontro com todos eles – sempre na faixa da esquerda.

Nem vou me estender aqui para lembrar que essa faixa é, por definição do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), exclusiva para ultrapassagens. No entanto, é muito comum ver o motorista brasileiro estacionar ali, a 90 km/h, ignorando completamente a procissão de carros que se forma atrás dele e as luzes de advertência (setas ou farol alto) pedindo passagem.

Seta? Pra que serve mesmo?

A arte de sinalizar a intenção de manobra parece ter ficado na prova prática de exame de CNH. Nunca mais o cidadão a utiliza. Trocar de faixa em alta velocidade sem avisar quem vem atrás é brincar de roleta-russa. A seta não é um pedido de permissão, mas um aviso de segurança fundamental a quem viaja a 100-120 km/h.

A iluminação “vingativa”

É falta de educação, para não lembrar o quão perigoso, você viajar em estradas de mão dupla e se esquecer de desligar o farol alto para não cegar quem vem em sentido contrário. Quando não há ninguém à frente ou vindo em sentido contrário, use. Mas com moderação. Ele atrapalha a visão de quem vem do outro lado da pista, tanto quanto incomoda o carro que viaja à frente.

Brasil

Olho na tela, não na estrada

É a praga do século. O desvio de atenção provocado pelo smartphone tirou o foco das rodovias, aumentando drasticamente o risco de tragédias. Um segundo olhando para a notificação do celular a 100 km/h significa percorrer dezenas de metros totalmente “no escuro”.

Disse parágrafos atrás que não mencionaria os erros cometidos nos ambientes urbanos, mas preciso cometer essa exceção. Quem anda de moto, sabe. É absolutamente irritante o quanto você precisa se precaver dos motoristas que guiam com o olho na telinha do celular. O cara vai desviando da trajetória e você, ao ultrapassá-lo, vai sendo espremido. É ridículo. É fácil xingar motociclista, mas tirar o olhinho da tela… o cara não tira.

Me ajuda a lembrar: quais os outros erros que você mais vê?

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Eduardo Pincigher

Eduardo Pincigher

Eduardo Pincigher é jornalista formado pela PUC-SP e atua no setor automotivo desde 1989, com passagens em diversas publicações e montadoras. Hoje, trabalha como assessor de imprensa de empresas do segmento por intermédio de sua agência de comunicação.