O desafio do deslocamento seguro em moto

Profissionais de Recursos Humanos começam a olhar torto para as motos

por Tite Simões

Um dos equívocos cometidos sobre as motos é acreditar que ela foi inventada para ganhar tempo nas grandes cidades. Nada disso! A moto foi criada por uma questão de economia de dinheiro. Imagine o mundo no século 19 para entender que não havia necessidade nenhuma de um veículo para driblar o trânsito. A ideia era ser uma opção mais barata do que um automóvel.

As motos ganharam impulso depois da Segunda Guerra, quando as economias da Europa e Japão estavam em frangalhos. Da necessidade de um veículo econômico e barato, que não dependia de muito aço, nasceram as bicicletas motorizadas no Japão e Europa, que se espalhariam pelo mundo. Quando as grandes cidades começaram a mostrar um quadro de crescimento exponencial de veículos, aí, sim, as motos foram vistas como solução de mobilidade urbana. Portanto, ela nunca foi pensada para agilidade, mas para economia!

Hoje em dia, a moto se tornou sinônimo de rapidez, tanto que muitos dos usuários não tem a menor paixão pelo veículo; usa apenas por necessidade. O deslocamento para ir e vir do trabalho faz parte da principal razão de compra. Só que essa procura trouxe na garupa um efeito colateral: os acidentes de percurso.

O acidente de percurso causa um tremendo impacto em uma rede produtiva que pode ser desde um simples comércio a uma complexa linha de montagem industrial. Essa preocupação já está tão presente nas relações trabalhistas que alguns profissionais de Recursos Humanos começam a tomar algumas medidas radicais. Uma delas é recusar currículo de quem tem carteira nacional de habilitação na categoria “A”, para motociclistas. Ou, numa decisão mais arbitrária, chegam a proibir seus funcionários de usarem motos, sob ameaça de demissão.

Parece exagero, mas sabe-se, desde sempre, que a recuperação de uma vítima de acidente de moto pode demorar até um ano, o que causa um tremendo abacaxi para a área de recursos humanos. Imagine se a vítima for um operário que realiza um trabalho complexo e importante em uma linha de montagem? A falta imprevista desse profissional vai mexer diretamente na produção até que se consiga deslocar um “reserva” à altura, com mesmo grau de especialização e intimidade com o equipamento.

Segundo a pesquisa patrocinada pela Abraciclo e realizada em conjunto com a área de saúde de São Paulo, 68% das vítimas de acidente com moto não são os moto-fretistas, mas sim pessoas que compraram moto em busca de mobilidade urbana. É fácil entender a necessidade de uma moto em São Paulo. Dependendo da região, um cidadão pode levar até quatro horas no deslocamento “casa-trabalho-casa” usando transporte público. O mesmo trajeto pode ser feito em uma hora usando a moto. A diferença de tempo pode ser aproveitada para melhorar a qualidade de vida, por meio de cursos de qualificação, esporte, lazer ou passar mais tempo com a família.

Ah, mas ele pode se acidentar…

Sim, pode, porque o sistema de habilitação é ridiculamente falho e não há forma de se especializar depois de “habilitado”. Sem contar nos motociclistas que rodam pela cidade sem passar pela formação mínima necessária, muitos sem sequer ter a carteira de habilitação.

Nesse contexto de necessidade de mobilidade eficiente e risco de acidente no ir e vir do trabalho é que deveria entrar o papel da iniciativa privada. Claro, porque nem dá pra sonhar em curto prazo com uma alternativa apresentada pela administração pública, que joga contra moto desde que inventaram a roda. Qualquer cidadão que tenha estudado a história recente do Brasil sabe o quanto o País foi loteado à indústria automobilística, a ponto de se boicotar qualquer intenção de oferecer transporte público de qualidade.

Em outras palavras, quem quiser se mover que se vire!

Já que não podemos esperar nada de efetivo das vias políticas, a esperança é que a iniciativa privada faça esse papel. E aqui vão alguns conselhos para quem trabalha com recursos humanos e se arrepia diante de uma habilitação de motociclista.

 

  • Leve informação – Não espere que um neo-motociclista procure saber tudo sobre segurança e técnica de pilotagem logo depois de pegar sua habilitação. Ele(a) vai montar na moto e aprender pela pior maneira possível: na prática. Existem empresas e profissionais especializados em realizar palestras e cursos para neo-habilitados. Tenho conhecimento de redução de até 90% nos casos de acidentes com motociclistas depois de realizado um permanente trabalho de conscientização em uma grande empresa.

 

  • Incentive o uso de equipamento – Curiosamente, a maioria dos neo-motociclistas que trabalha em indústria já usa os EPIs – Equipamentos de Proteção Individual, mas tiram antes de montar na moto e voltar para casa. Um dos argumentos para o relaxamento no uso dos equipamentos é o custo de aquisição. Já defendi até um financiamento consignado: a empresa empregadora compraria os equipamentos diretamente do fornecedor, a preço subsidiado, e revenderia aos seus funcionários em suaves prestações. Mas, para que isso dê certo, é preciso fiscalizar…

 

  • Curso – Nem sempre as palestras teóricas são suficientes para desmistificar alguns preconceitos ao pilotar uma moto, que é um veículo naturalmente mais difícil do que um carro. O exame para aprovar um novo motociclista é tão ridículo que nem sequer colocam a segunda marcha. Também existem cursos que recebem os novatos, assim como, profissionais que vão até a empresa e ministram cursos “in loco”.

  • Prevenção sempre – É importante promover as semanas de prevenção de acidente de trânsito e lembrar que o tema “moto” deve permear todas as palestras, porque mesmo quem não pilota deve saber como reagir perto de uma.

 

  • Blitz educativa – Nomeie um profissional da CIPA para fazer blitz periódicas no estacionamento das motos e verificar como está a manutenção. Itens como pneus e freios devem ser observados regularmente.

 

  • Não é lazer – Existe um preconceito sobre motociclistas: todo mundo acha que nós amamos tomar chuva, voar nos buracos, levar cusparada de motoristas de ônibus ou fugir de cachorros. Nada disso! Quem usa moto em São Paulo e grandes cidades, o faz por necessidade. Muitos sonham mesmo em ter um carro, mas a moto é mais acessível e a escolhem só por isso!

 

  • Família – Ensine os neo-motociclistas que a família é o porto seguro deles. Voltar para casa inteiro e saudável é tão importante quanto manter um padrão de vida.

 

  • Tempo investido – Quem recorre às motos pode economizar até uma hora e meia por dia. Aproveite para dar a estes profissionais a oportunidade de fazer um curso, praticar esportes, investir na carreira etc. O tempo que se economiza em deslocamento pode e deve ser investido em qualidade de vida.

 

E um conselho para quem quiser entrar para o mundo das motos: não pense que a moto é um veículo feito para ganhar tempo. Na verdade, ela foi feita para não perder tempo. Em uma cidade que roda a uma velocidade média de 8 km/h, rodar a 25 significa uma enorme vantagem. Não precisa mais!

 

Tite Simões – Jornalista, instrutor de pilotagem dos cursos SpeedMaster e ABTRANS de Pilotagem (www.abtrans.com.br)

Contato: info@abtrans.com.br

 

Fotos: Divulgação

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