De Kardian a Niagara: o plano que reposicionou a Renault no Brasil

De Kardian a Niagara: o plano que reposicionou a Renault no Brasil

Quem acompanha o mercado brasileiro de perto viu a Renault construir sua presença aqui com carros acessíveis, volume alto e uma identidade bastante reconhecível. Quem olhar para o showroom da marca hoje vai encontrar outra coisa: um SUV híbrido de 245 cv, um C-SUV com Google Gemini embarcado de fábrica, um compacto que exportou mais de 30 mil unidades no primeiro ano e, em breve, uma picape inteiramente desenhada e produzida na América Latina.

Não é coincidência nem reposicionamento improvisado. É um plano com nome, prazo, pilares definidos e quatro produtos que o materializam. Entenda o que é a “nova Renault” e o que ela colocou na rua.

O plano por trás da virada

O reposicionamento nasce do International Game Plan 2027, o plano estratégico da Renault para os mercados internacionais, apresentado em outubro de 2023 no Rio de Janeiro. A lógica é explicada pelo próprio Fabrice Cambolive, Chief Growth Officer do Renault Group e CEO da marca Renault, em quatro pilares: localização da produção, eletrificação para apoiar a transição energética fora da Europa, entrada em novos segmentos de mercado e aumento da receita por unidade.

Esse último ponto talvez seja o mais revelador do que mudou. A Renault não está apenas lançando mais carros, está lançando carros de maior valor, em segmentos onde antes não competia, apostando que o consumidor brasileiro paga por design, tecnologia e acabamento se o produto entregar.

O plano ganhou um capítulo seguinte com o futuREady, que prevê 14 novos modelos para mercados fora da Europa até 2030. A meta declarada é gerar metade das vendas globais fora da Europa e elevar a fatia de motorizações elétricas e híbridas para 50% do mix nesses mercados.

No Brasil, o calendário ficou assim: Kardian em 2024, Boreal em 2025, Koleos e Niagara em 2026.

Kardian: o primeiro passo e o mais premiado

O Renault Kardian inaugurou a nova fase. Foi o primeiro veículo da estratégia produzido no país e se tornou o modelo mais premiado da indústria em 2025. A lista impressiona:

  • Carro do Ano 2025 (Autoesporte), o título mais tradicional da indústria automobilística brasileira
  • Motor do Ano Combustão 2025 (Autoesporte), com o conjunto turbo TCe 1.0 flex de 125 cv desenvolvido pela Horse
  • Carro do Jornal do Carro, escolhido pelo júri do Prêmio Mobilidade Estadão 2025
  • Melhor Carro Nacional no Car Awards Brasil 2025, da equipe da Car Magazine
  • Melhor SUV Compacto no Carsughi L’Auto Preferita
  • Melhor SUV/Crossover pela Associação Brasileira da Imprensa Automotiva (Abiauto), além do prêmio destaque Abiauto José Roberto Nasser
  • Prêmio AutoData, na categoria de Automóveis e Picapes

Os números de produção explicam por que ele funcionou como base da virada: mais de 80 mil unidades no primeiro ano de mercado, das quais mais de 30 mil foram exportadas para 13 países da América Latina.

Sob a carroceria está a plataforma RGMP (Renault Group Modular Platform), que passaria a sustentar boa parte da nova gama. O motor é o turbo TCe de 125 cv e 220 Nm, com câmbio automático de dupla embreagem úmida. O que chamou atenção, porém, foram os itens deslocados de segmentos superiores: freio de estacionamento eletrônico, alavanca e-shifter, sistema Multi-Sense com iluminação ambiente em oito cores e ajustes de direção e resposta do conjunto motor/câmbio. São seis airbags de série em todas as versões e 13 sistemas de assistência ao motorista.

A família ganhou um novo integrante na linha 2027: o Kardian Vibe, que assume o posto de versão de entrada da gama por R$ 99.990. Ele mantém o motor 1.0 turbo flex de 125 cv, agora com câmbio manual de seis marchas e uma calibração voltada à eficiência — a Renault reduziu 43 kg do conjunto, diminuiu a área frontal e alongou a relação final da transmissão. O resultado, segundo o Inmetro, são 13,7 km/l na cidade e 15,3 km/l na estrada com gasolina, números que colocam o Vibe dentro dos critérios do programa Carro Sustentável do governo federal.

Boreal: o salto tecnológico

Se o Kardian abriu a porta, o Renault Boreal mostrou até onde a marca pretendia ir. Apresentado mundialmente em julho de 2025, em São Paulo, ele fez do Brasil o primeiro país do mundo a comercializar o modelo — um detalhe que diz muito sobre o peso do mercado brasileiro no plano.

São 4,56 m de comprimento por 1,84 m de largura, com entre-eixos de 2,70 m e balanços curtos, o que rende espaço interno sem inchar o carro. A dianteira traz o logo aplicado na grade pintada na cor da carroceria e uma assinatura luminosa inédita, com módulos de LED adicionais que alargam visualmente o veículo.

Por dentro, o painel duplo horizontal openR — inspirado nos Renault 5 e Renault 4 E-Tech elétricos — reúne um cluster digital de 10 polegadas e uma central multimídia também de 10 polegadas. E aqui está o marco: o Boreal é o primeiro Renault a oferecer o sistema Google Automotive Services fora da Europa, e o primeiro a trazê-lo de série no Brasil. O som é Harman Kardon, desenvolvido em parceria com o músico Jean-Michel Jarre.

Em assistências, são até 24 sistemas ADAS — segundo a marca, a proposta mais completa entre os C-SUVs a combustão —, incluindo condução semiautônoma de nível 2 que combina piloto adaptativo com Stop&Go e centralização de faixa.

O mercado respondeu à altura. O Boreal foi eleito Carro do Ano 2026 pela Autoesporte, repetindo o feito do Kardian no ano anterior e dando à Renault dois títulos consecutivos na principal premiação do setor. Antes disso, já havia sido escolhido Melhor SUV Médio entre os lançamentos do ano no Prêmio Trend Car 2025 Terra Guia do Carro, com 82,6% dos votos, além de vencer a categoria SUV Grande no L’Auto Preferita e a de SUV acima de R$ 201 mil no TOP CAR TV.

Koleos: a estreia no segmento D e na eletrificação

O Renault Koleos é o terceiro veículo do International Game Plan no Brasil e cumpre dois papéis de uma vez: coloca a Renault no segmento D e estreia a motorização full hybrid E-Tech no portfólio nacional.

O conjunto combina um motor 1.5 turbo de injeção direta com dois motores elétricos e transmissão DHT, resultando em 245 cv — tudo em formato HEV, ou híbrido pleno, que se recarrega sozinho e dispensa tomada. São 4,78 m de comprimento e 2,82 m de entre-eixos, com três telas de 12,3 polegadas, head-up display, som Bose com cancelamento ativo de ruído e 29 sistemas de assistência ao motorista, entre eles estacionamento autônomo e câmera 360° com função de chassi transparente.

O Koleos também marca outra mudança estrutural: ele nasce da plataforma CMA, arquitetura desenvolvida por Volvo e Geely, fruto da parceria entre Renault Group e Geely — sociedade que, no Brasil, se formalizou em novembro de 2025 com a criação da Renault Geely do Brasil. Chegou em versão única, a esprit Alpine, que traz para um SUV os códigos da marca esportiva da casa.

Niagara: do carro-conceito à picape de verdade

A Renault Niagara começou como concept car, apresentado a jornalistas em outubro de 2023 e exibido ao público pela primeira vez no Salão do Automóvel de São Paulo de 2025, em uma evolução preparada especialmente para o evento. Projetado no Renault Design Center Latam, no Brasil, em colaboração com o centro de design de Paris.

Agora ela é produto. Revelada oficialmente em setembro, a picape chega às concessionárias brasileiras em novembro de 2026, produzida na fábrica Santa Isabel, em Córdoba, na Argentina. Ela ocupa o espaço que era da Oroch e um acima, disputando clientes com modelos como Fiat Toro e Ram Rampage.

A proposta é explícita no material da marca: o conforto de um C-SUV com a robustez de uma picape. São 4,94 m de comprimento (4,91 m na versão 4×2) por 1,72 m de altura, sobre a plataforma RGMP em versão picape, com chassi de calibração exclusiva, eixo traseiro próprio e suspensão multilink atrás — arranjo que, segundo a Renault, reduz em 30% a frequência natural de movimentos da carroceria. Os freios são a disco ventilado nas quatro rodas.

O motor é um 1.3 turbo de injeção direta com 158 cv de potência e 270 Nm, em todas as versões, que incluem uma 4×4. O câmbio é manual de seis marchas na de entrada ou automático EDC de dupla embreagem úmida, também de seis, nas demais versões. O sistema 4×4 é gerenciado por um botão giratório no console, com modos Eco, Comfort, Sport, Smart, MySense e Terrain, distribuindo o torque entre os eixos conforme a aderência. O vão livre é de 233 mm na 4×4 (223 mm na 4×2), com ângulos de ataque e saída de 22,1°.

No trabalho: caçamba de 938 litros com 654 kg de capacidade de carga, capa retrátil, revestimento interno, tampa elétrica, oito ganchos de ancoragem e tomada de 12V. A capacidade de reboque é de 710 kg, sendo um diferencial no segmento.

Na cabine é onde a promessa de SUV aparece com mais força. Multimídia de 10,1 polegadas e painel digital de 10,2, com o sistema openR Link com Google integrado — e o Gemini, assistente de IA generativa, que responde em linguagem natural em vez de comandos pré-programados. O banco traseiro é reclinado em 25 graus, recurso inédito na categoria, e o espaço para os joelhos, de 200 mm, é apontado pela marca como o melhor do segmento. Atrás dos bancos há um compartimento de 36 litros, acessível pela cabine. A iluminação ambiente vai a 48 cores.

A Renault informa ainda que a Niagara passou por mais de 50 mil horas e 800 mil km de testes, em asfalto e fora dele, na Argentina, no Brasil, na Colômbia e em centros europeus da marca. Uma versão híbrida MHEV, com motor elétrico no eixo traseiro, está anunciada para o segundo semestre de 2027.

“Viva a Nova Renault”

A tradução disso tudo para o consumidor ganhou forma de campanha. Assinada pela DPZ e lançada no Salão do Automóvel de São Paulo, “Viva a Nova Renault” traz o conceito “temos uma longa estrada no Brasil, mas com a emoção de quem acabou de chegar” e usa como trilha “O Que É, o Que É”, de Gonzaguinha, em arranjo que mistura o clássico brasileiro ao DNA francês da marca.

O que muda para quem compra

Somando os quatro modelos, o retrato fica claro: a Renault saiu de uma faixa única de atuação para cobrir do compacto ao segmento D, do turbo a gasolina ao híbrido pleno, do SUV urbano à picape com tração nas quatro rodas — e passou a colocar tecnologia embarcada (Google nativo, ADAS em quantidade, assistentes de IA) como argumento central, não como item de topo de linha.

Para o consumidor, o efeito prático é ter mais pontos de contato com a marca ao longo da vida: quem entra pelo Kardian Vibe, abaixo dos R$ 100 mil, encontra um caminho natural para o Boreal, e de lá para o Koleos. E quem precisa de caçamba não precisa mais sair da marca.

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Paula Jabour

Paula Jabour

Paula Jabour é criadora de conteúdo e copywriter. Ela atende clientes de diversos setores, incluindo automotivo, restaurantes, artistas e profissionais liberais.