Lecar revela planos ambiciosos, mas adia produção pra 2027
A Lecar apresentou no Salão do Automóvel de São Paulo o conceito do Lecar Tático, novos detalhes comerciais e o cronograma revisado de sua futura fábrica no Espírito Santo. A maior promessa da marca, todavia, não se concretizou: tanto na coletiva quanto no estande foram exibidos apenas mockups, maquetes, sem sinal do carro funcional que supostamente seria trazido para o evento.
A marca brasileira aposta em tecnologia híbrida flex e autonomia elevada como principal diferencial, mas os anúncios feitos no evento também revelam um descompasso entre a ambição da estratégia comercial e o avanço real dos produtos.
Lecar Tático: conceito promete robustez com sistema híbrido flex
O principal projeto da marca foi o conceito Lecar Tático, um SUV híbrido-flex de porte médio que pretende ocupar o segmento dos utilitários robustos. O modelo está sendo projetado com tração 4×2 ou 4×4, cinco lugares, suspensão reforçada e arquitetura Range Extender — na qual o motor flex funciona apenas como gerador para alimentar o motor elétrico de 165 cv.
A proposta inclui autonomia estimada de 1.000 km usando 30 litros de etanol, sem necessidade de recarga externa. O design reforça a intenção de criar um “jipão nacional”, com postura elevada e formas quadradas inspiradas em utilitários clássicos.
O CEO também informou que ele compartilhará várias peças, além da tecnologia, com os outros modelos da marca.
Mas a marca não apresentou protótipo funcional, e o modelo permanece sem previsão de lançamento.
Campo e 459
A Lecar também expôs novamente a picape Campo e o sedã 459, futuros produtos da marca. Ambos utilizam o mesmo sistema híbrido flex, com motor 1.0 turbo da Horse como gerador e motor elétrico traseiro de 163 cv.
Apesar da expectativa criada de chegar ao mercado nacional como soluções eficientes, nenhum dos dois modelos está em estágio avançado.
A promessa é de que trariam um modelo funcional e exibiriam até o interior, mas a picape exibida no Salão ainda apresentava elementos provisórios, incluindo peças em isopor e fitas no lugar dos faróis — um indicativo de que o desenvolvimento ainda está em fases iniciais.
A marca confirma que a autonomia pretendida do 459 é de 1.000 km com 30 litros de etanol e que acelerará de 0 a 100 km/h em 10,9 segundos. Mas, no fundo, são apenas dados teóricos, já que não existe nenhum protótipo funcional.
O mais inusitado, porém, é que os dois carros, mesmo antes de existirem, já têm preço: ambos custarão R$ 159.300,00.

Rede de 150 concessionárias até 2026, mas sem carros até 2027
Mas o anúncio que mais chamou atenção foi o plano de expansão comercial. A Lecar pretende inaugurar mais de 150 concessionárias até o fim de 2026 – número que supera a rede de várias marcas consolidadas no país –, integrando lojistas de seminovos com investimento de até R$ 150 mil por ponto de venda.
O problema é o cronograma industrial oficializado pela própria marca: a fábrica de Sooretama (ES) só começa a produzir no segundo semestre de 2027.
Isso significa que a Lecar planeja ter uma rede nacional completa um ano antes de ter qualquer carro para entregar. A ausência de produtos prontos e a revisão do cronograma industrial não foram destacadas na coletiva, sendo comunicadas apenas em releases posteriores.
Para o consumidor e para o setor, o cenário levanta dúvidas importantes:
- Como manter 150 concessionárias ativas por até um ano sem produto?
- Quais serão as receitas dessas lojas até a chegada dos modelos?
- Haverá demonstrações, test-drives ou estoques mínimos?
- O sistema de Compra Programada será suficiente para sustentar a operação?
A estratégia sugere uma dependência profunda do modelo de financiamento e pré-venda, mas sem histórico comprovado da marca no país — o que intensifica o risco percebido pelo mercado.
Programa Executivos Lecar e modelo comercial
A empresa também divulgou o Programa Executivos Lecar, que cria uma rede de representantes independentes conectados à fábrica, responsáveis por prospecção comercial. Hoje, são 20 executivos ativos e mais de 200 em treinamento, segundo eles. As vendas, no entanto, só podem ser concluídas nas concessionárias, respeitando a Lei Ferrari.
A marca aposta ainda na Compra Programada, com parcelas a partir de R$ 2.212,50 e prazos de até 72 meses, como forma de viabilizar o acesso aos veículos quando estiverem disponíveis.
Fábrica no Espírito Santo tem novo cronograma e acordo chinês em análise
A fábrica da Lecar teve o cronograma revisado. As obras devem começar no primeiro trimestre de 2026, com produção no segundo semestre de 2027. A capacidade prevista é de 120 mil veículos anuais e 1.300 empregos diretos e indiretos.
Porém, imagens do Google Street View de janeiro de 2025 mostram que o local continua sendo um grande terreno vazio e tomado por mato, com apenas uma pequena construção no centro. Ainda assim, o fundador afirma que a obra “está sendo erguida”.
Durante a apresentação, Assis chegou a provocar a Toyota ao dizer que o telhado da futura fábrica será reforçado contra vendavais, em referência ao acidente que destruiu parte da planta da japonesa em Porto Feliz (SP).
A empresa também avalia um acordo de transferência tecnológica com uma grande montadora chinesa, envolvendo cooperação em engenharia e acesso a plataformas elétricas. No entanto, a Lecar não revelou qual seria essa fabricante — uma ausência que levanta dúvidas importantes sobre o grau de avanço das negociações e sobre a viabilidade real do acordo.
Conclusão: avanço conceitual, mas execução ainda distante
Os anúncios feitos pela Lecar no Salão do Automóvel evidenciam uma marca com visão estratégica clara: eletrificação via etanol, engenharia nacional e proposta de produtos robustos.
No entanto, a distância entre o discurso e a execução permanece significativa.
O Tático, a Campo e o 459 ainda não passaram da fase de conceito; a fábrica só produzirá carros em 2027; e a rede planejada para 2026 pode iniciar suas operações sem nenhum veículo para vender ou demonstrar — um risco comercial considerável.
A Lecar afirma ter confiança no cronograma revisado e na eficiência do modelo de vendas, mas, até o momento, os fatos indicam que o principal desafio será transformar promessas ambiciosas em produtos concretos.
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