Ônibus elétricos nacionais já são realidade; e os carros?

Ônibus elétricos nacionais já são realidade; e os carros?

Enquanto a produção nacional de carros EVs é limitada, a indústria de ônibus elétricos segue avançando com tecnologia brasileira de ponta

O Brasil vive um paradoxo curioso quando o assunto é eletrificação sobre rodas. De um lado, o mercado de carros eletrificados cresce em ritmo recorde, com mais de 223 mil unidades vendidas em 2025 entre elétricos e híbridos, consolidando um novo patamar de demanda e interesse do consumidor. Do outro, a produção nacional de automóveis elétricos ainda avança com cautela, concentrada em poucos projetos e, em sua maioria, dependente de regimes de montagem com alto conteúdo importado. Enquanto isso, a indústria nacional de ônibus elétricos já entrega cada vez mais veículos 100% movidos a energia, de grande porte, com tecnologia embarcada e aplicação real no transporte público urbano.

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O exemplo mais recente desse contraste vem do transporte coletivo. A Marcopolo iniciou a entrega dos primeiros ônibus biarticulados elétricos do Brasil, da linha Attivi Express, que vão operar no sistema BRT da Grande Goiânia. A frota conta com 21 veículos totalmente elétricos, cinco biarticulados de 28 metros e 16 articulados de 21 metros, com carrocerias produzidas no Rio Grande do Sul e chassis elétricos fornecidos pela Volvo, dentro de um projeto de eletrificação estruturado e funcional.

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Mais do que o tamanho, os ônibus chamam atenção pelo nível tecnológico. Os modelos trazem câmeras embarcadas, monitoramento interno com reconhecimento facial, portas com acionamento eletrônico e sistema antiesmagamento, além de interior completo com ar-condicionado, iluminação full LED, piso amadeirado, poltronas estofadas com entradas USB e soluções avançadas de acessibilidade. É um pacote que combina engenharia nacional, conforto e eficiência energética em um veículo pensado para rodar intensivamente todos os dias.

O avanço não é isolado. O mercado brasileiro de ônibus elétricos vive uma fase de forte expansão, com produção local de chassis e carrocerias. A BYD lidera esse movimento desde 2015, com fabricação nacional de chassis 100% elétricos e planos de ampliar significativamente sua capacidade produtiva nos próximos anos. A Marcopolo se consolidou como referência no desenvolvimento de carrocerias elétricas completas, enquanto a Mercedes-Benz já produz em série o chassi elétrico eO500U para o mercado nacional. Diferentemente do setor de automóveis, a eletrificação dos ônibus no Brasil já nasce com foco claro na nacionalização da cadeia e na aplicação prática em sistemas urbanos.

Com carros elétricos o cenário é diferente

Quando o assunto são os carros, o panorama ainda é bem mais contido. Atualmente, o único modelo 100% elétrico produzido no Brasil é o BYD Dolphin Mini, montado em Camaçari (BA) no regime SKD, com componentes importados e finalização local. A mesma estratégia é aplicada pela marca chinesa nos híbridos plug-in King, Song Pro e Song Plus, também montados na planta baiana. A GWM segue caminho semelhante em Iracemápolis (SP), produzindo modelos PHEV como Haval H6 e H6 GT, igualmente com peças importadas.

A exceção mais sólida vem da Toyota, que desde 2019 produz veículos híbridos com maior nível de nacionalização, como o Corolla sedã e, desde 2021, o Corolla Cross. Ambos utilizam tecnologia híbrida plena, sem recarga externa, e se destacam pelo uso de motorização flex, combinando gasolina e etanol em uma solução desenvolvida localmente. Mais recentemente, a Toyota também iniciou a produção nacional do Yaris Cross HEV flex, reforçando sua aposta em eletrificação adaptada à realidade brasileira.

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O contraste é evidente. Enquanto os carros elétricos e eletrificados nacionais ainda são poucos e, em grande parte, dependentes de kits importados, os ônibus movidos a energia brasileiros já circulam com tecnologia avançada, produção local e impacto direto na mobilidade urbana. Isso ocorre justamente em um momento em que o mercado de eletrificados cresce de forma acelerada no país, mostrando que há demanda, escala e interesse do consumidor.

O avanço recorde nas vendas de eletrificados em 2025 indica que o Brasil deixou de tratar o tema como nicho. Ainda assim, o exemplo dos ônibus mostra que há um vasto terreno inexplorado para a indústria automotiva de passageiros. A tecnologia já está aqui, aplicada e funcionando, falta agora transformar esse know-how em investimento e uma produção nacional de carros elétricos mais robusta, alinhada ao ritmo que o próprio mercado brasileiro já começou a ditar.

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Junio Paiva

Junio Paiva

Formado em Jornalismo pela PUC Minas, Júnio atua desde 2017 na produção de conteúdo automotivo para redes sociais e sites especializados. Seu foco está na redação, cobertura de lançamentos e nos bastidores da indústria automotiva.

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