Nenhuma marca de automóveis liga pra mim

Como um atrevido cronista, vou começar o texto de hoje falando de um tema que não tem relação nenhuma com carros. Aparentemente. No fundo, até tem. O ponto de encontro é o fato de você discordar da grande maioria em um determinado aspecto ou circunstância da vida diária. Chegaremos lá.

Dia desses me envolvi em uma discussão com “pet lovers”. Disse a certa altura que eu também gostava de cachorros e era dono do ‘Zeca’. Pra quê… “Não é dono que fala!” Aliás, o problema já começou por aí. Não se pode mais falar “dono de cachorro”. É tutor. Ah, vai pegar um cabeçote de Corcel daqueles bem incrustrados de borra pra dar banho de querosene, rapaz! Que frescura é essa? Eu disse que acho, apenas acho, e eu espero que isso seja ainda permitido nessa sociedade cheia de não-me-toques, que restaurante, shopping-center, hotéis e outros locais públicos não deveriam ter animais domésticos.

Adoro cães. Aprendi a gostar até de gatos. Mas não acho razoável impor a presença do ‘Zeca’ a outras pessoas que não gostem (ou tenham medo) em locais públicos. Tão simples como isso. Se eu viajo, pago alguém para cuidar diariamente dele. Ou ainda posso deixá-lo em uma hospedagem pet.

Eu gosto de cães. Mas tenho um respeito maior por pessoas.

Vamos fazer uma analogia com o que nos interessa, então. Há locais que não permitem cães, salvaguardando aquela parcela mínima de pessoas que não curtem ou têm medo. Pois bem.

Mas não há fabricantes de automóveis que se interessem em consumidores como eu.

Acho, apenas acho, que as marcas de automóveis são extremamente óbvias na formulação de suas famílias de produtos. São uma espécie de “pet lovers” unanimemente. Como uma delas cismou de lançar um suvealgumas décadas atrás e deu certo, todo mundo correu e foi fazer o(s) seu(s). Fato é que, hoje, se eu tenho R$ 200 mil pracomprar um carro, praticamente só há opções de suves no mercado brasileiro. E tem o Toyota Corolla.

Nós dois sabemos que o custo de desenvolvimento de um novo projeto é altíssimo, caso sua fabricante não esteja na China, e que qualquer “novo carro” precisa ser (bem) vendido para amortizar o oinvestimento e ainda render lucro. Sabemos disso. Mas é aí que, insisto, as fabricantes de automóveis não observam outros segmentos de mercado para delinearem suas famílias de produtos.

Vou fazer outra analogia aqui. Se eu sou o SBT e tenho que concorrer com a Globo no horário nobre, como conseguirei produzir novelas que roubem audiência da emissora líder? Ou eu faço uma novela melhor, o que seria improvável e caríssimo, ou eu compro um pacote de novelas mexicanas e coloco no ar. Terá o mesmo nível? Óbvio que não. Mas eu vou ganhar no “custo-benefício”. Elas custarão muito mais baratas do que produzir algo no padrão Globo e ainda me renderão uma fatia de audiência. Ela será pequena, mas o custo é baixo. Ou eu gasto menos ainda e repito os mesmos 20 episódios de Chaves durante anos. E bola pra frente. Terei menos audiência, mas gastarei pouco na produção.

Grave essa última frase do parágrafo anterior.

Por que as fabricantes não agem assim? Vou ser bem didático: eu não ligo praconectividade. Não faço a menor questão de quadro de instrumentos digital. Também não me incomoda o plástico duro no alto do painel. Não preciso de porta-malas que se abra com um sensor sob o para choque. Se eu assumo o volante de um carro com sistemas semiautônomos, acredite, eu não dou a partida se não descobrir primeiro onde desliga tudo aquilo.

Retire agora tudo isso de um carro e imagine o quanto cairia seu custo de produção.

Eu compro um carro porque preciso de um meio de transporte que me leve do ponto A ao ponto B, mas desde que me forneça prazer ao dirigir. E isso está diretamente relacionado a aspectos mecânicos, como motor, câmbio, suspensão e freios. Só isso me interessa em um carro.

É tão irreal esperar que alguma marca de automóveis possa prestar atenção nesse tipo de usuário? Pra poder ser servido por essa receita, eu tenho um carro com dez anos de uso. Simplesmente porque hoje não existe uma opção que me entregue essa proposta de handling pelo preço que eu paguei. Repetindo o exemplo: se eu juntar grana pra trocar minha F30 e chegar aos R$ 200 mil praadquirir um carro zero km, eu terei de comprar um Corolla… ou partirei para uma G20, com 4 ou 5 anos de uso. Mas suve de R$ 200 mil… deve haver uns 30. Ou 40.

Nenhuma montadora MESMO vai contemplar um consumidor como eu? Ninguém mais considera o consumidor de nicho? Só o Silvio Santos enxergava isso???

Que tal produzir hoje um sedã zero km de 200 cv que seja destituído de toda essa parafernália eletrônica e que se destine àquela parcela (mínima) de consumidores que somente gosta de guiar, sem se preocupar com modernismos digitais?

Em outras palavras, não dá pra fazer uma “novela mexicana”?

As marcas de automóveis só funcionam com o efeito manada. Pra onde uma vai, todas seguem. Nenhuma é capaz de pensar fora da caixa. Incrível que isso existe com abundância no segmento de motocicletas, ao qual também acompanho de perto. O que não é uma Harley-Davidson se não o enaltecimento ao motociclista que preza por visual vintage, ronco visceral, torque em baixa… Não há eletrônica. Aliás, há sim, mas sem ser intrusiva. Sem extrair do produto os motivos pelos quais o cliente a comprou.

E eu não sou fã particular de Harley. Mas tenho que reconhecer (enaltecer, elogiar, valorizar) que é uma receita que preza pelo cliente que tem as suas preferências. É isso a que chamamos de cliente de nicho. “Ah, mas uma Harley custa R$ 130 mil, no mínimo”. Ok. Você gasta um terço e compra uma Royal Enfield. Nenhuma fábrica de automóveis faz isso.

A não ser a Porsche. Mas está faltando a Royal dos carros, isto é, alguma empresa que forneça o carro que eu quero a um custo mais acessível, ora.

(Eu já tive uma Royal, inclusive.)

Mudando de assunto, mas dentro ainda do mesmo tema. Estou hoje, dia 6, em Curitiba. Vim ontem direto do interior de São Paulo para cá e usei uma estradinha sinuosa, a SP-079, que sai de Sorocaba e cruza a Serra do Mar até chegar à BR-116 (Rod. Régis Bittencourt). Vou te falar: reforcei minhas convicções de que meu próximo carro será uma 320 mais nova.

A estradinha tem 130 km, é bem estreita e as copas das árvores a deixam bem escura. Não há retas de mais de 300 metros. Uma curva em cima da outra. Como havia dado uma pancada de chuva horas antes, o asfalto estava úmido. Adivinhe. Desliguei a eletrônica e, sem fazer loucuras, me diverti MUITO. Mas muito mesmo, sem nem andar rápido.

Nenhum suve me daria isso. Nem o Corolla. Eu sou exceção, repito, como o telespectador que ria das peripécias do Chaves, do Quico e do Professor Girafales. Mas acho incrível que nenhuma montadora me contemple hoje em dia. Alguém sabe quanto custa uma G20 com baixa quilometragem?

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