Gasolina E32 chega aos postos: por que o Brasil adiciona etanol ao combustível?

Apesar do recente anúncio do aumento de etanol na gasolina reacender a polêmica sobre o assunto, medida é adotada no país há quase 100 anos

A gasolina com 32% de etanol anidro começa a chegar aos postos brasileiros neste sábado (1º), marcando mais um passo na política de ampliação dos biocombustíveis no país. A nova composição, chamada de gasolina E32, eleva em dois pontos percentuais a participação do combustível vegetal na mistura e tem validade inicial de 180 dias, podendo ser prorrogada.

A mudança reacendeu o debate sobre os impactos da medida para a frota nacional, mas a presença do etanol na gasolina brasileira está longe de ser uma novidade. Na prática, trata-se de uma estratégia adotada há décadas para reduzir a dependência do petróleo, fortalecer a produção nacional de combustível renovável e diminuir a exposição do país às oscilações do mercado internacional de energia.

Estratégia teve início antes do PróAlcool

A mistura de etanol à gasolina faz parte da história da matriz energética brasileira desde o início da década de 1930. Na época, o governo determinou que a gasolina importada recebesse uma pequena parcela de álcool produzido no país, em uma tentativa de reduzir a dependência externa e estimular a cadeia sucroenergética nacional.

Nos anos seguintes, a política foi sendo ampliada. Ainda durante o governo de Getúlio Vargas, o setor passou a contar com uma estrutura específica para organizar a produção de açúcar e álcool, enquanto a adição do biocombustível também foi estendida à gasolina produzida no Brasil.

O maior salto, porém, ocorreu após a crise internacional do petróleo nos anos 1970. Com a disparada dos preços do barril e o risco de desabastecimento, o governo criou o Programa Nacional do Álcool (PróAlcool), que transformou o etanol em uma alternativa estratégica para reduzir a dependência do combustível importado. A iniciativa impulsionou investimentos em pesquisa, expandiu a produção e abriu caminho para o desenvolvimento dos motores a álcool e, anos depois, dos atuais veículos flex.

Depois de perder força na década de 1990, o etanol voltou a ganhar protagonismo a partir dos anos 2000 com a popularização da tecnologia flex, hoje predominante na frota brasileira.

Por que o Brasil usa mais etanol do que outros países?

Embora a mistura de etanol à gasolina exista em outros mercados, poucos países adotam percentuais tão elevados quanto o Brasil. Outras nações que utilizam o biocombustível trabalham com proporções entre 10% e 20%, como Vietnã e Filipinas, 15%, como os EUA, e 5% em países da União Europeia. A medida é tomada para reduzir o consumo de gasolina e diminuir as emissões de poluentes.

A diferença é que o Brasil reúne condições que poucos mercados possuem. Além de ser um dos maiores produtores de cana-de-açúcar do mundo, o país conta com uma indústria consolidada de etanol e uma frota amplamente adaptada ao combustível graças à tecnologia flex. Isso torna sua produção mais competitiva economicamente do que em mercados que dependem de outras matérias-primas ou até da importação do próprio etanol.

Nos últimos anos, o aumento da participação do biocombustível também passou a fazer parte da estratégia de segurança energética do governo. Em momentos de instabilidade internacional e alta do petróleo, elevar o percentual de etanol reduz a necessidade de importação de gasolina e diminui os efeitos econômicos de conflitos internacionais.

O que motivou a gasolina E32?

O aumento da mistura de 30% para 32% foi aprovado pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e oficializado por resolução publicada pelo governo federal, com base na Lei do Combustível do Futuro. A medida foi fundamentada em estudos coordenados pelo Comitê Técnico Permanente do Combustível do Futuro e conduzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia, que, segundo o governo, indicaram a viabilidade da nova composição para a frota brasileira.

De acordo com o Executivo, a gasolina E32 amplia o uso de um combustível renovável produzido no país, reduz a necessidade de importação de derivados de petróleo e fortalece a segurança energética nacional. A adoção definitiva de percentuais superiores continua condicionada à realização de novos testes para a futura gasolina E35, limite previsto na legislação.

O etanol também desempenha um papel técnico na composição da gasolina. Além de ser um combustível renovável, ele aumenta a octanagem da mistura, que se torna mais resistente, e reduz a necessidade de aditivos químicos durante o refino.

Apesar disso, a mudança segue cercada de questionamentos. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) defende que a elevação da mistura obrigatória só deveria ocorrer após estudos específicos sobre durabilidade, consumo, emissões e compatibilidade com toda a frota nacional. O posicionamento foi posteriormente reforçado pelo Ministério Público Federal (MPF), que ingressou com uma ação civil pública pedindo a suspensão da gasolina E32 até que novas avaliações técnicas sejam concluídas.

Enquanto a Justiça analisa o pedido, a nova gasolina já começa a chegar às bombas para fazer parte da rotina dos motoristas brasileiros, dando sequência a uma política pública iniciada há quase um século e que continua sendo uma das principais características da matriz de combustíveis do nosso país.

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