A disputa por incentivos fiscais no setor automotivo ganhou novos contornos nos últimos dias, com uma troca pública de cartas entre montadoras tradicionais e a chinesa BYD, que chegou ao Brasil com preços agressivos e promessa de acelerar a eletrificação da frota nacional. O impasse levou o governo federal a buscar uma solução intermediária, antecipando parte da cobrança de impostos, mas mantendo benefícios temporários para a montadora asiática.
O estopim: carta das montadoras a Lula
No centro da polêmica está a carta enviada por Toyota, Volkswagen, General Motors e Stellantis ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As montadoras pediram o fim da isenção de impostos para veículos elétricos e híbridos parcialmente desmontados (nos sistemas CKD e SKD), alegando risco de perda de competitividade e impacto direto nos planos de investimento no Brasil. Segundo as empresas, a continuidade dos incentivos à importação poderia comprometer até R$ 60 bilhões em aportes e levar à eliminação de 10 mil empregos diretos e 50 mil indiretos.
A resposta afiada da BYD
A BYD respondeu com um tom direto e provocativo. Em carta divulgada nesta terça-feira (30), a montadora chinesa rebateu as acusações de concorrência desleal, argumentando que opera conforme a legislação brasileira e utiliza um modelo de produção adotado por várias empresas que atuam no país. A fabricante destacou que já iniciou a montagem local na fábrica de Camaçari (BA), reafirmando seu compromisso com a nacionalização gradual da produção.
“Agora, chega uma empresa chinesa que acelera fábrica, baixa preço e coloca carro elétrico na garagem da classe média, e os dinossauros surtam”, afirma o texto da BYD, que acusa as rivais de recorrerem a uma “chantagem emocional com verniz corporativo” para manter um modelo de negócio defasado. A empresa ainda lembrou que sua entrada no mercado pressionou a queda de preços dos concorrentes, o que beneficiou diretamente o consumidor.
Decisão do governo tenta conciliar interesses
Diante da tensão no setor, o governo anunciou uma medida de equilíbrio. Em reunião extraordinária do Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex), decidiu antecipar a cobrança da alíquota máxima de 35% sobre a importação de veículos elétricos e híbridos desmontados para janeiro de 2027 — antes prevista para 2028. Para os veículos completamente montados, o cronograma original será mantido, com a tributação integral em julho de 2026.
Ao mesmo tempo, o governo concedeu à BYD uma cota de importação isenta de impostos no valor de US$ 463 milhões (cerca de R$ 2,58 bilhões), válida por seis meses. O volume deve cobrir a demanda da montadora até a conclusão da primeira fase da fábrica baiana. A empresa afirma que, em até cinco anos, 70% da produção será nacionalizada.
Concorrência, empregos e futuro da mobilidade
A medida foi interpretada como um esforço do governo para proteger a indústria nacional sem desestimular novos investimentos estrangeiros. O movimento também atende parcialmente a pressões de entidades como Anfavea, Abipeças, CUT e Força Sindical, que defendem uma transição energética com manutenção de empregos e produção local.
A expectativa é que o debate continue nos próximos meses, especialmente à medida que a BYD avança em sua operação no país e outras fabricantes se adaptam à nova realidade de mercado. A discussão sobre impostos, incentivos, nacionalização da produção e acesso a tecnologias limpas segue como um dos principais temas no processo de transformação do setor automotivo brasileiro.
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