Volkswagen e Chevrolet estão envolvidas em escândalo de cartel investigado pelo Cade

Montadoras são investigadas por formarem cartel junto a dezenas de outras empresas, envolvendo salários e políticas aos seus empregados

A Volkswagen e a Chevrolet estão entre as 59 multinacionais investigadas pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) por suposta participação em um esquema de cartel envolvendo políticas de Recursos Humanos, salários, benefícios e estratégias de contratação de funcionários no Brasil. Segundo informações reveladas em reportagem da revista Veja, as empresas teriam compartilhado dados considerados sensíveis para reduzir a concorrência entre empregadores e limitar disputas por profissionais no mercado de trabalho.

A investigação aponta que as companhias envolvidas somam mais de 3 milhões de trabalhadores no país. O foco da apuração é um possível “cartel de RH”, prática que teria permitido o alinhamento de remunerações, bônus, benefícios e políticas internas entre grandes grupos empresariais de diversos setores, incluindo o automotivo.

Na prática, o Cade suspeita que trabalhadores interessados em migrar de uma empresa para outra encontrariam propostas muito semelhantes entre as companhias participantes do esquema. Um funcionário da Volkswagen, por exemplo, teria dificuldade para obter ganhos salariais relevantes ao buscar vaga na Chevrolet ou em outras multinacionais investigadas, já que as empresas compartilhariam parâmetros semelhantes de remuneração e benefícios.

Segundo o órgão, a prática teria reduzido a competitividade entre empregadores e limitado o poder de negociação dos profissionais brasileiros. Em nota presente no processo, o Cade afirma:

“A conduta tem o efeito de limitar e dificultar a livre concorrência entre empregadores na disputa para contratação e manutenção da força de trabalho disponibilizada no mercado de trabalho brasileiro, com potenciais impactos que recaem especialmente sobre a força de trabalho sujeita a um grupo de empresas, com alcance nacional”.

As investigações tiveram início em 2024 e avançaram após acordos firmados entre o Cade e cinco empresas: Bayer e Monsanto, General Mills, Dow Brasil, 3M do Brasil e IBM Brasil. As companhias confessaram participação nas práticas investigadas e passaram a colaborar com as autoridades.

Uma das empresas envolvidas relatou que o grupo teria chegado até mesmo a um entendimento para suspender bônus de executivos durante o período da pandemia, além de influenciar negociações salariais com sindicatos.

De acordo com as apurações, as práticas teriam ocorrido no âmbito do Grupo de Empresas de Consumo (Gecon), que reúne companhias ligadas ao setor de bens de consumo. O Cade investiga a troca de informações estratégicas sobre remuneração, políticas de contratação e benefícios corporativos entre as integrantes do grupo.

Agora, o órgão deve ampliar a coleta de depoimentos e aprofundar a fase probatória do processo. Recursos apresentados por algumas empresas para limitar o alcance das investigações já foram negados. Caso sejam condenadas, as companhias podem receber multas de até 20% do faturamento bruto registrado no ano anterior ao início das práticas investigadas.

Além da Volkswagen e da General Motors, responsável pela Chevrolet, a investigação também envolve empresas como 3M, Bayer, BRF, Claro, Danone, Goodyear, IBM, McDonald’s, Nestlé, Philips, Pirelli, Siemens Energy, Unilever, Vale, Whirlpool e White Martins e Natura, entre outras empresas multinacionais e nacionais atuantes no Brasil.

Com o avanço do caso, o Cade tenta determinar se houve efetivamente um alinhamento coordenado entre as empresas para reduzir a competição por mão de obra, prática que pode ter impactado diretamente salários, benefícios e oportunidades de milhões de trabalhadores brasileiros.

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