Já estávamos em agosto de 1984 quando a Fiat apresentou no Brasil o seu então revolucionário Uno. O carro era considerado revolucionário porque oferecia soluções inéditas, principalmente se considerássemos ser um popular, para a grande massa consumidora.
A exemplo SUVs de hoje, o Uno já mostrava uma posição mais ereta para sentar-se, fato que facilitava a entrada e a saída do pequeno popular. Além disso, soluções de ergonomia traziam inovações inéditas: dois módulos de comando ao lado do volante de direção permitiam ao motorista acesso aos faróis, lanternas, limpador de para-brisa, lavadores, desembaçador e por aí vai.
Basicamente, sua mecânica era semelhante à do antigo 147. Esse fato facilitava a vida das concessionárias e dos mecânicos que faziam a manutenção dos Fiat pelo Brasil afora. Afinal de contas, quem era capaz de consertar um 147, poderia da mesma forma, fazer a manutenção do novo Uno.
O novo carro herdou do 147 também o conjunto motor/câmbio. Em sua versão S de entrada, possuía o robusto e confiável motor 1050 alimentado por carburador de corpo simples. Na versão mais cara CS, havia um 1300, diretamente derivado do 1050 básico. O câmbio era sempre o mesmo, e problemático, manual de 4 marchas, que só veio ganhar a quinta em 1986.
Dessa história toda do Uno, que fez 40 anos no ano passado, é interessante ressaltar a trajetória do motor 1050. Quando foi apresentado no Brasil em 1976, o Fiat 147 originariamente deveria ter um motor de 1000 cm³. Mas os Italianos descobriram que, aqui no Brasil, a legislação louca cobrava mais impostos para motores até 1000 cm³ do que para motores de 1001 até 1600 cm³.
Por isso, a toque de caixa, deram um jeitinho de aumentar a cilindrada de seu motor 1000 para 1050 cm³. Dessa forma, pagariam uma alíquota de imposto menor de que se tivesse um motor pequeno. Assim nasceu o motor 1050!
Como já tinham pronta a receita do 1000 cm³, que já era produzido na Itália há mais de uma década, foi fácil lançar o Mille em 1990. Na época, nossos legisladores corrigiram a falha de cobrança de IPI: carros com até 1000 cm³ de capacidade cúbica do motor pagariam menos impostos, como deve ser. Era lógico: quanto maior a cilindrada, maior o imposto. A justiça foi feita!
No início de 1990, como as coisas não iam bem para a nossa indústria automotiva, e o objetivo era manter os empregos para quem trabalhasse na área, o governo criou a lei do carro popular: carros equipados com motores de até 1000cm³ ficariam isentos do pagamento do IPI e do ICMS, desde que não custassem mais do que 7 mil Dólares.
Nesse ponto da história, a Fiat deu sua cartada para transformar-se em um curto período como o maior fabricante de carros do Brasil, ultrapassando as concorrentes nacionais da época (VW, GM e Ford). Quando a nova lei entrou em vigor, a Fiat era a única que tinha um motor 1000cm³ prontinho!
De bate e pronto, nasceu o Uno Mille, com a proposta de custar os 7 mil Dólares e ser equipado com o motor menor, mais econômico, com menores índices de poluição e mais adequado a proposta popular. A nova legislação pegou todas as outras marcas de calças curtas, menos a italiana.
Resultado: a Fiat nadou de braçada por quase dois anos, sozinha, vendendo Uno Mille a 7 mil Dólares, com isenção de impostos e atendendo a toda demanda nacional. Fabricavam o carrinho 24 horas por dia e sete dias por semana. Haja estoque para atender a demanda e a alegria do consumidor brasileiro.
O motor 1000 caía bem no Uno, que era um carro leve e não perdia sua agilidade nem os bons índices de consumo. Depois vieram Chevrolet Chevette Junior (péssimo de performance e antiquado à beça), VW Gol 1000 (razoável, mas veio tarde) e, por último, o Ford Escort Hobby (com mesmo motor do Gol, demorou ainda mais). Pois o Mille fez seus 35 anos de história com muito sucesso, durando muito mais do que a Fiat podia prever: ficou em produção até o final de 2013.
E, pelo mesmo motivo que nasceu, teve que ser morto: a legislação, que passou a obrigar airbag duplo e freios ABS para todo carro vendido no Brasil a partir de janeiro de 2014. Progresso que o Uno, com seus quase 30 anos, não conseguiu acompanhar. Se não fossem essas normas de segurança, diria que ele teria ido ainda mais longe…
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