Baseada no Renault Twingo E-Tech, nova geração do Dacia Spring, antes um Kwid com sotaque romeno, é apresentada com mais potência e espaço
A Dacia apresentou na Europa a nova geração do Spring, elétrico que durante anos foi uma versão europeia do Renault Kwid e que também serviu de base para o Kwid E-Tech vendido no Brasil. Agora, porém, o compacto muda radicalmente de origem. Em vez de evoluir a arquitetura derivada do Kwid, passa a utilizar a mesma base do novo Renault Twingo E-Tech, em um projeto desenvolvido desde o início para a propulsão elétrica.
A mudança reposiciona o Spring dentro da gama da marca romena. O modelo continua com a proposta de ser um dos elétricos mais acessíveis da Europa, mas deixa de apostar apenas no baixo preço para ganhar espaço, desempenho e uma apresentação mais alinhada aos rivais que chegaram recentemente ao segmento, como BYD Dolphin Mini e Geely EX2.
A nova plataforma também permite que o Spring abandone a relação visual direta com o Kwid. Apesar de compartilhar arquitetura e proporções gerais com o Twingo, o Dacia tem desenho próprio, com frente marcada por faróis estreitos, elementos horizontais na grade fechada e grandes áreas de plástico nos para-choques. A carroceria também assume proporções mais próximas às de um hatch compacto do que do pequeno crossover da geração anterior.
Mais espaço sem abandonar a simplicidade
O crescimento é uma das consequências mais perceptíveis da mudança de plataforma. O novo Spring mede 3,85 metros de comprimento, 1,74 m de largura, 1,52 m de altura e tem 2,49 m de entre-eixos. Na comparação com o modelo anterior, são cerca de 15 cm a mais no comprimento e 18 cm adicionais na largura, deixando a cabine menos estreita.
O porta-malas também aumentou. São 337 litros com os bancos traseiros em posição normal, contra 290 litros do modelo anterior, e até 1.283 litros com os encostos rebatidos. Há ainda a possibilidade de instalar um compartimento dianteiro de 18 litros para os cabos de recarga. Apesar do ganho de espaço, o Spring continua homologado para quatro ocupantes.
Apesar da evolução, a Dacia preservou a estratégia de contenção de custos no interior, já que o painel tem materiais mais simples do que os encontrados nos modelos chineses. Ainda assim, as versões mais equipadas recebem quadro de instrumentos digital de 7 polegadas e central multimídia de 10″. Na configuração de entrada, a tela central dá lugar a um suporte para smartphone.
Algumas soluções, contudo, mostram onde a marca cortou custos. As portas traseiras deixam de ter vidros elétricos e passam a utilizar pequenas janelas basculantes. O banco traseiro também é fixo, enquanto o Twingo conta com assento corrediço. A lista de recursos tecnológicos é igualmente mais enxuta que a do Renault.
Mais potente, mas ainda focado na eficiência
O novo Spring será oferecido com um único motor elétrico de 82 cv e bateria LFP de 27,5 kWh. A autonomia chega a 250 km pelo ciclo WLTP, enquanto o consumo declarado é de 12,7 kWh/100 km.
Na geração anterior, o Spring utilizava motores menos potentes, dependendo da configuração, e tinha uma bateria de capacidade semelhante. O novo conjunto melhora principalmente a entrega de desempenho: são 12,1 segundos para acelerar de 0 a 100 km/h e velocidade máxima de 130 km/h. O peso fica em torno de 1,2 tonelada, mantendo o compacto relativamente leve para um elétrico.
Na Europa, os preços ajudam a explicar a estratégia. A versão Expression parte de 17.900 euros, enquanto a configuração Journey permanece abaixo dos 20 mil euros, antes dos incentivos disponíveis em cada país. As primeiras unidades estão previstas para chegar às concessionárias no início de 2027.
A nova geração também marca uma mudança importante na produção. O Spring deixa para trás a fabricação chinesa associada ao projeto anterior e passa a ser produzido na Europa, na fábrica da Renault em Novo Mesto, na Eslovênia. A aproximação com o Twingo permitiu à Dacia reaproveitar soluções do projeto elétrico e acelerar o desenvolvimento do novo modelo.
E o Brasil?
A ligação entre Spring e Kwid E-Tech parece ter chegado ao fim. Por aqui, o elétrico de acesso da Renault foi lançado em 2022 como uma variação direta do modelo romeno e teve sua trajetória encerrada neste ano, mesmo após receber uma atualização considerável poucos meses antes. A nova geração do Spring, por sua vez, não tem nenhuma relação com o subcompacto produzido no Paraná e não deve dar as caras por aqui.
O cenário brasileiro ajuda a entender essa ruptura. A Renault firmou uma parceria com a Geely para desenvolver e produzir veículos no país, e o Geely EX2 passou a ocupar justamente o espaço dos elétricos compactos de entrada que poderia ser destinado a uma evolução do Kwid E-Tech. O modelo chinês será produzido na fábrica da Renault no Brasil, tornando pouco provável que a marca volte a recorrer ao Spring como alternativa elétrica do Kwid.
Na Europa, portanto, a Dacia segue com o Spring em uma nova fase, agora mais próxima tecnicamente do Twingo e mais preparada para enfrentar a crescente oferta de elétricos chineses. No Brasil, a história parece seguir outro caminho, com o EX2 assumindo o papel que um dia pertenceu ao Kwid E-Tech.