Empresas temem desequilíbrio no setor automotivo caso governo reduza impostos para veículos importados desmontados
As quatro maiores montadoras que operam no Brasil — Volkswagen, Toyota, General Motors e Stellantis — enviaram uma carta conjunta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 15 de junho, para alertar sobre os impactos negativos de uma possível mudança na política industrial brasileira. A medida em análise, coordenada pela Casa Civil sob o comando do ministro Rui Costa (PT), prevê incentivos à importação de veículos no sistema SKD (Semi Knocked Down), em que os carros chegam desmontados ao país e são montados localmente, com pouca ou nenhuma fabricação nacional de peças.
Segundo as montadoras, essa política favoreceria fabricantes estrangeiros — especialmente chineses — e comprometeria a competitividade da indústria brasileira. O sistema SKD, bem como o CKD (Completely Knocked Down), já é utilizado por marcas como Caoa Chery e BMW. No entanto, a preocupação das empresas tradicionais é que uma eventual redução de impostos para esses modelos amplie a desigualdade concorrencial e comprometa investimentos locais.
Corte de investimentos e possível demissão em cadeia
No documento, as montadoras argumentam que a adoção do incentivo ao sistema SKD comprometerá os investimentos já anunciados para os próximos cinco anos, estimados em R$ 180 bilhões. Desse total, R$ 130 bilhões são voltados à produção de veículos e R$ 50 bilhões à cadeia de autopeças. Segundo as empresas, pelo menos R$ 60 bilhões desse montante podem ser revistos ou cancelados caso a medida seja implementada.
O impacto no emprego também é uma das principais preocupações. As montadoras preveem que até 5 mil trabalhadores diretos poderão ser dispensados e 10 mil contratações previstas deixariam de ocorrer. O efeito, segundo as empresas, seria multiplicado na cadeia de fornecedores. Para cada vaga encerrada em uma montadora, estima-se a perda de até 10 postos de trabalho no setor de autopeças, o que pode gerar uma retração de até 50 mil empregos.
“As consequências ultrapassam os muros das fábricas. Há risco de desarticulação de toda a cadeia automotiva nacional”, afirmam os signatários da carta. Eles defendem que a política industrial brasileira seja baseada na valorização da produção local, com prioridade para empresas que fabricam peças e componentes no país.
Setor de autopeças também reage
A movimentação das montadoras foi reforçada por entidades representativas da indústria de autopeças. Nesta segunda-feira (28), a Abipeças (Associação Brasileira da Indústria de Autopeças) e o Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores) também se manifestaram contra a possível redução das tarifas de importação de kits SKD e CKD. Segundo as entidades, a medida criaria um ambiente de concorrência desleal, provocando queda de produção, demissões e uma revisão forçada de investimentos já planejados.
As alíquotas atuais são de 18% para carros elétricos e 20% para modelos híbridos. A BYD, montadora chinesa interessada na mudança, solicitou ao governo uma redução para 5% e 10%, respectivamente. A proposta será debatida pelos representantes de 11 ministérios que compõem o Gecex-Camex.
Ausência de resposta do governo
Até o momento, a carta enviada pelas montadoras não foi respondida pelo presidente Lula. O documento também foi encaminhado ao ministro Rui Costa e ao vice-presidente Geraldo Alckmin, que acumula a função de ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A falta de retorno tem gerado apreensão no setor, que vê o silêncio como um possível indicativo de que o governo deve avançar com as novas regras.
Empresários e entidades do setor automotivo pedem que qualquer decisão leve em conta os efeitos sobre a cadeia produtiva nacional e não privilegie modelos que dependem exclusivamente de peças estrangeiras. Para eles, a medida vai na contramão da reindustrialização prometida pelo governo e pode colocar em risco a competitividade da indústria automotiva brasileira.
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