Fabricantes dos EUA e da Europa amargam perdas bilionárias nos últimos dois anos com altos custos em eletrificação e concorrência da China
A conta da transformação da indústria automotiva global começou a pesar, e muito, para as montadoras tradicionais. Fabricantes como Ford, General Motors e Volkswagen acumularam perdas estimadas em US$ 75 bilhões nos últimos dois anos, em um cenário marcado por apostas equivocadas no ritmo da eletrificação e pelo avanço consistente das marcas chinesas. As informações têm base no levantamento da ZAG Work, consultoria de Rogélio Golfarb.
O diagnóstico aponta para um erro estratégico relevante, com a expectativa de que os carros 100% elétricos ganhariam mercado em velocidade muito maior do que a observada na prática. Com isso, grupos tradicionais ajustaram fábricas, cadeia de fornecimento e portfólio para um volume elevado de EVs que simplesmente não se concretizou. No meio do caminho, foram obrigados a recalibrar a operação e pagar a conta.
Na prática, o que se vê hoje é uma indústria mais cara e complexa. Em vez de uma transição linear, as montadoras passaram a sustentar simultaneamente projetos de motores a combustão, híbridos, híbridos plug-in e elétricos. Esse “empilhamento” de tecnologias elevou custos operacionais justamente em um momento de margens pressionadas.
Ao mesmo tempo, o avanço das fabricantes chinesas adicionou um novo nível de dificuldade. Na China, maior mercado automotivo do mundo, a participação das marcas ocidentais despencou de 65% em 2020 para 35% em 2025. Mais do que ganhar espaço em volume, as marcas chinesas assumiram protagonismo em áreas estratégicas como baterias, semicondutores e eletrônica embarcada, pilares fundamentais da nova mobilidade.
O diferencial competitivo vai além de incentivos governamentais. Estimativas indicam que cerca de 88% da vantagem das chinesas vem de escala produtiva e integração vertical, ou seja, controle direto sobre componentes-chave e custos mais baixos ao longo de toda a cadeia. Trata-se de uma vantagem estrutural, difícil de ser revertida no curto prazo.
Esse movimento global já começa a refletir também em outros mercados. No Brasil, por exemplo, as marcas chinesas já respondem por cerca de 10% das vendas, com projeção de alcançar 35% até 2035, independentemente do crescimento do setor como um todo, segundo a estimativa de Golfarb.
O cenário ajuda a explicar decisões recentes dentro dos grandes grupos automotivos. A Stellantis, por exemplo, registrou prejuízo bilionário em 2025 após revisar investimentos pesados em eletrificação, reconhecendo que superestimou o ritmo da transição energética. O caso ilustra um movimento mais amplo de equilibrar ambição tecnológica com a realidade de mercado.
Mais do que apenas mudanças em motorização, o que está em jogo é uma transformação estrutural da indústria. O nível de concorrência mudou, e agora as montadoras tradicionais precisam correr atrás de um novo equilíbrio entre custo, tecnologia e escala para não perder ainda mais terreno.