Mais álcool na gasolina, menos dinheiro no bolso

Tudo é uma questão de balanço energético. O combustível vendido hoje nas bombas de todo o país, chamado oficialmente de “gasolina”, na realidade é um novo combustível, fruto da mistura do líquido derivado do petróleo somado ao álcool anidro (sem água). Esse novo combustível, apelidado por alguns de “gasonol” (gasolina + etanol) tem o seu poder energético que varia de acordo com o percentual da mistura do combustível fóssil com o derivado da cana de açúcar.
Como a gasolina pura, segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo), possui um valor energético na casa das 10.400 kcal/kg, e o álcool anidro, também pela ANP, oferece 6.750 kcal/kg, é claro que o combustível resultante dessa mistura vai variar seu poder calorífico (quantidade de energia em cada kg, ou litro), de acordo com o percentual da mistura.
Atualmente, segundo a própria Agência, nossa “gasonol” tem uma proporção de 73% de gasolina pura misturados a 27% de álcool anidro. O sistema eletrônico da maioria dos carros que roda pelo país já se adaptou a essa mistura, de maneira que o funcionamento, e o rendimento, dos motores modernos é bastante razoável. O consumo de combustível fica em níveis aceitáveis. Mas, claro, se tivéssemos menos álcool na gasolina, o rendimento dos carros em km/l, na cidade ou na estrada, seria ainda melhor. Em contrapartida, a emissão de gases poluentes aumentaria, afinal a queima da gasolina libera mais CO² do que a do álcool.
Assim, quanto mais álcool misturado na gasolina, menor tende a ser a poluição. Mas essas são questões ambientais, e aqui nessa coluna vou me conter aos fatores “preço” e “rendimento”. Se hoje, o “gasonol” vendido nas bombas tem um preço proporcional a quantidade de energia de cada kg (ou litro) de combustível, é claro que, se adicionarmos mais álcool, ele ficará, digamos, mais fraco. Terá menos energia, o que, na prática, resulta em menos km/litro.
Hoje, a nossa “gasonol”, pela ANP, está com cerca de 9.400 kcal/kg de energia, considerando os 27% de álcool anidro. Agora, o governo fala em aumentarmos a quantidade do combustível derivado da cana para 30%. Ou seja, o “gasonol” vai ficar um pouco mais fraco. Pelas minhas contas, o valor energético desse novo combustível, com 30% de álcool anidro, cairá para cerca de 9.300 kcal/kg, versus os 9.400 da versão com 27%.
Falando em energia, fica fácil entender que o consumo de combustível vai subir. Pouco, mas vai. Afinal, a queima do novo “gasonol” com 30% de álcool anidro vai liberar menos energia. O sistema eletrônico de alimentação dos veículos, percebendo isso, vai tratar de injetar um pouco mais de combustível na mistura, fazendo o consumo aumentar.
Em conversas “energéticas” com o pessoal de fábrica, principalmente aqueles que trabalham na área de motores, percebi uma maneira inteligente de pensar: os combustíveis deveriam ser vendidos a um preço equivalente ao valor energético que produzem. Assim, seria mais fácil comparar potencialidade de gasolina, álcool, diesel, GNV, eletricidade e por aí vai.
Há tempos, conversei demoradamente com Ricardo Dilser, que foi supervisor de produto na Stellantis, antes de assumir o cargo de editor/apresentador do programa AutoEsporte, na TV Globo. Ele já defendia a tese de que, por uma questão de justiça, todos os combustíveis deveriam ser precificados em função da quantidade da energia que rendem. Sem envolver condições políticas, mercadológicas, empresariais e por aí vai. Dessa forma, ficaria mais fácil de entender (e calcular), e seria mais justo para o consumidor escolher o combustível que lhe fosse conveniente na hora do abastecimento.
Mas, obviamente, outros fatores estão envolvidos nessa questão do poder calorífico. Cada combustível tem sua característica. A gasolina, por exemplo, com alto valor energético, é a que mais rende nos km/l, justamente pela sua queima que libera mais energia. A contrapartida do combustível derivado do petróleo é a tal da emissão de gases poluentes, que, segundo especialistas, acaba desequilibrando a atmosfera do planeta. O nível de CO² liberado durante a queima é elevado.
Já o álcool comum, hidratado (possui cerca de 6% de água), entrega muito menos energia em sua queima (6.300 kcal/kg). Apesar disso, libera uma quantidade de CO² muito menor na atmosfera, poluindo menos o ambiente. Além disso, seu poder antidetonante é bem maior que o da gasolina, o que permite ao motor valores altíssimos de taxa de compressão (14 ou 15:1), o que melhora significativamente o rendimento térmico da máquina. Por isso seu consumo não é absurdamente alto. Quando bem aproveitado em um bom motor, compensa o menor poder calorífico com maior eficiência (eleva potência e torque, por exemplo).
É uma pena que os motores flex, que tem a limitação da gasolina, tenham freado o desenvolvimento dos motores puramente a álcool. Hoje, com os avanços da eletrônica no gerenciamento de um veículo (injeção de combustível, ignição e afins), os resultados são alta eficiência e ótimo rendimento. Mas, infelizmente, a possibilidade de uso de gasolina em algumas regiões reduz a performance desses motores. Por isso que um motor flex é bom tanto com álcool quanto com gasolina, mas ele não consegue extrair o melhor de nenhum desses dois combustíveis.
A adição de mais 3% de álcool na gasolina não será sentida pelos carros flex, que rapidamente se adaptam à nova proporção. Porém, certamente, em veículos importados que aceitam apenas gasolina, a diferença será grande. Da mesma forma, veículos mais antigos puramente a gasolina, também sofrerão mais. O peso será sentido no bolso do motorista, afinal ele pagará o mesmo preço (ou mais) no “gasonol”, que virá com (ainda) mais álcool em sua composição.
Numa situação teórica, ao abastecer o tanque de um carro movido só a gasolina com 100 litros, serão 30 litros de álcool custando preço de gasolina. 3 litros do combustível derivado da cana a mais, e, particularmente, duvido que haja compensação financeira para tal. Dificilmente vão readequar os preços considerando a nova proporção de álcool, e pagaremos mais para levar menos. No final, acabará saindo dos nossos bolsos, mas, fazer o que, não é?
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