No vídeo que postamos sobre o Geely EX2, diversas pessoas comentaram que um dos fatores decisivos na compra é a garantia e que escolheriam o rival, BYD Dolphin, por ter uma garantia melhor. E não é por acaso: quando falamos de carros elétricos compactos, a garantia costuma ser um dos elementos mais importantes para reduzir o medo do desconhecido — especialmente em um segmento ainda novo para grande parte dos consumidores brasileiros.
A chegada do Geely EX2 ao Brasil acirra a disputa no mercado dos elétricos compactos, dominado pelo BYD Dolphin desde o lançamento. Os dois modelos têm propostas semelhantes: preço competitivo, porte urbano, manutenção simples e foco no comprador do primeiro elétrico. Mas quando o assunto é garantia — um dos fatores mais sensíveis na compra — as duas marcas seguem estratégias distintas, o que muda a percepção de risco, altera o custo total de propriedade e influencia diretamente o valor de revenda.
A seguir, analisamos como essas diferenças podem afetar quem está escolhendo um elétrico de entrada.
Garantia da bateria: pilares diferentes de confiança
A bateria de tração é o componente mais caro de um veículo elétrico. Por isso, sua garantia costuma ser o item mais observado por quem compra seu primeiro EV.
Geely (mais rígida):
Geely EX2
- Bateria: 8 anos ou 150.000 km
- Uso comercial: mesmo limite
- SOH* mínimo exigido: 70% de capacidade para caracterizar defeito
* SOH, ou State of Health (Estado de Saúde), é o indicador que mostra quanto da capacidade original uma bateria de carro elétrico ainda possui, funcionando como um “termômetro de envelhecimento”. Expresso em porcentagem, ele revela o quanto a bateria degradou ao longo do uso: uma bateria nova tem SOH próximo de 100%, enquanto valores mais baixos indicam perda de capacidade e autonomia. As montadoras usam o SOH para definir se a bateria está em condição normal ou se há defeito que justifique troca em garantia — por isso, limites mais altos de SOH exigidos na garantia são mais favoráveis ao consumidor.
BYD Dolphin
- Uso pessoal: 8 anos sem limite de quilometragem
- Uso comercial: 8 anos ou 500.000 km
- SOH mínimo exigido: 60% de capacidade para caracterizar defeito
Análise Crítica
A Geely limita a garantia da bateria a 150 mil km, independentemente do uso. Já a BYD oferece duas proteções significativas: quilometragem ilimitada no uso pessoal e 500 mil km no uso comercial — um dos maiores limites do setor.
Mas existe uma diferença essencial — e pouco discutida — entre o que cada marca considera uma bateria dentro da normalidade:
Geely (mais rígida):
A bateria deve manter pelo menos 70% da capacidade original.
Se cair para 69%, dentro do período e da quilometragem, isso pode ser entendido como defeito e gerar substituição coberta pela garantia, ou seja, a cargo da montadora.
BYD (mais permissiva):
Qualquer bateria com 60% ou mais ainda é considerada normal.
Ou seja, o dono não tem direito automático à troca caso a SOH da bateria seja igual ou superior a 60%.
Isso significa que a BYD tolera uma degradação maior (até 40%) antes de considerar que existe um problema coberto pela garantia.
Em termos práticos:
Se duas baterias caírem para 65% de SOH:
- Geely: isso já pode ser motivo de abertura de garantia.
- BYD: isso ainda é tratado como comportamento normal da bateria, não ensejando troca coberta pela garantia.
Resumo deste ponto
- O Dolphin tem grande vantagem em quilometragem.
- O EX2 exige uma saúde mínima superior da bateria, o que é mais favorável ao consumidor caso ocorra degradação precoce.
Garantia do veículo completo: impacto no custo de propriedade
Geely EX2
- 6 anos ou 150.000 km (uso pessoal)
- 2 anos ou 150.000 km (uso comercial)
BYD Dolphin
- 6 anos, sem limite de quilometragem (uso pessoal)
- 2 anos ou 100.000 km (uso comercial)
Análise Crítica
Para pessoa física, o Dolphin oferece uma vantagem muito clara: seis anos sem limite de quilometragem.
Para uso comercial, a Geely permite rodar mais (150 mil km contra 100 mil km da BYD), mas o período é o mesmo (2 anos), o que limita o impacto real dessa vantagem para boa parte dos frotistas.
Garantia de peças e itens especiais: dois enfoques opostos
BYD Dolphin
A BYD oferece uma tabela extensa, com dezenas de prazos diferentes.
Itens estruturais e de alta tensão chegam a 72 meses, mas muitos componentes caem para 12 meses no uso comercial, e outros têm garantias muito curtas (como palhetas e lâmpadas com 6 meses ou 10 mil km).
Essa variedade oferece mais proteção em itens importantes, mas exige atenção do proprietário para entender as diferenças.
Geely EX2
A Geely simplifica: tudo o que não estiver na lista de exceções tem o mesmo prazo do veículo completo (6 anos ou 150.000 km).
Itens especiais recebem 3 anos ou 60.000 km, e itens de desgaste 3 meses ou 5.000 km.
Menos abrangente que a BYD, mas muito mais simples de entender.
Cancelamento de garantia: a BYD é mais rígida
A BYD apresenta uma das listas mais extensas e específicas de motivos para cancelamento de garantia entre as montadoras do mercado de elétricos. Segundo o manual, a garantia pode ser anulada se qualquer revisão obrigatória não for feita dentro dos prazos, se o veículo for reparado fora da rede autorizada, se houver instalação de acessórios não originais, uso de lubrificantes ou fluidos fora da especificação, modificações estruturais ou elétricas, alterações no odômetro, sinais de uso inadequado (como sobrecarga, participação em competições, uso fora de estrada quando não previsto), além de danos causados por força maior, agressões químicas, vandalismo ou bateria mantida abaixo de 5% por mais de 14 dias. Também há cláusulas específicas que excluem garantia se o cliente não apresentar a nota fiscal, se a bateria for aberta ou manipulada sem autorização, ou se forem usados carregadores não recomendados (páginas 33 e 34 do Manual de Garantia do BYD Dolphin). Em resumo: a BYD oferece ampla cobertura, mas exige disciplina rígida de manutenção e adesão estrita às regras — qualquer desvio pode resultar no cancelamento imediato da garantia.
A Geely também prevê cancelamento em várias situações, como revisões não realizadas, manuseio inadequado, modificações não autorizadas, instalação de peças não genuínas, uso indevido do veículo, danos por força maior e impossibilidade de comprovar quilometragem (como hodômetro adulterado). Contudo, as regras são menos numerosas e menos detalhadas. A Geely não impõe, por exemplo, cláusulas específicas como perda de garantia por deixar a bateria dias abaixo de um nível mínimo, nem uma lista tão longa de itens externos que anulam automaticamente a cobertura. Embora o cliente ainda precise seguir manutenção em rede autorizada, o risco de cancelamento por critérios muito específicos é menor.
Conclusão crítica:
A BYD oferece uma garantia mais robusta, com maior cobertura e limites de quilometragem mais favoráveis ao consumidor, mas cobra isso com um controle extremamente rígido sobre manutenção, uso e modificações. Já a Geely entrega uma política mais simples, com menos itens que possam anular a garantia — o que reduz a probabilidade de cancelamentos inesperados, embora a cobertura geral seja menos abrangente.
Percepção de marca e valor futuro
Geely EX2
A limitação de quilometragem e o histórico recente no Brasil podem gerar cautela. Isso afeta o valor de revenda — compradores de usados preferem garantias longas e sem limites rígidos.
Vale notar, porém, que a Geely é um dos maiores grupos automotivos do mundo, proprietária de Volvo, Polestar e Lotus, o que reforça sua credibilidade global, mesmo que a operação brasileira ainda esteja em construção. No Brasil, a marca chegou inicialmente por meio de uma parceria estratégica com a Renault, o que lhe permite aproveitar a estrutura de pós-venda e suporte já existente da rede francesa enquanto desenvolve sua própria rede de concessionárias exclusivas. Essa combinação de presença gradual, apoio de um grupo estabelecido e construção de capilaridade própria tende a reduzir parte das incertezas comuns ao ingresso de uma nova marca no mercado.
BYD Dolphin
A BYD utiliza a garantia como ferramenta estratégica para reforçar sua imagem de confiabilidade — o que combina com sua liderança global em elétricos.
A quilometragem ilimitada reduz o medo de desvalorização e cria um diferencial difícil de igualar. Porém ela se beneficia das entrelinhas do manual que muitos não prestam atenção.
Esse efeito se intensifica com o fato de que a BYD foi apontada como a marca com clientes mais satisfeitos do Brasil, segundo levantamento da Decoupling (1º tri de 2025).
Conclusão
O confronto entre as garantias do BYD Dolphin e do Geely EX2 mostra duas estratégias distintas. A BYD aposta em benefícios amplos, quilometragem ilimitada e forte proteção para quem roda muito, mas exige disciplina rigorosa nas manutenções e tem maiores chances de perda da garantia. A Geely oferece uma estrutura mais simples e direta, com prazos menores, mas menor risco de perda de garantia.
Na prática, o melhor pacote depende do perfil do comprador, mas a BYD entrega maior proteção para a maioria dos usos reais, enquanto a Geely aposta na previsibilidade.
Confira os Manuais de Garantia do BYD Dolphin e do Geely EX2:
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Essa comparação vale para o BYD Dolphin Mini também?