Esculhambar carro elétrico é ignorância. Mas vai passar
Tenho 56 anos. Pertenço a uma geração que, na adolescência, fazia piadas jocosas com etnias, credos e preferências sexuais. Ainda bem que esse tempo passou. Você pode continuar insistindo, porém, com esse hábito asqueroso, tipo o “tio do churrasco”. É o “sem noção”, que critica de forma desrespeitosa as opções que não são as dele.
Ou você pode cair na real. Estamos no ano da graça de dois mil e vinte e seis e algumas ignorâncias são hoje muito mais repelidas do que aplaudidas. Respeito é bom. E o mundo exige. Queira você ou não. Esculhambar carro elétrico está no mesmo patamar de ignorância que se via na minha adolescência.
(Escolhi um tema bem polêmico até com o objetivo de me desculpar com o leitor pela ausência dessa coluna nas últimas semanas. O excesso de afazeres e a falta de bons temas me levaram a pular algumas semanas. Peço desculpas. Vamos falar de algo que recupere esse buraco. Vamos criar polêmica…rs)
A inspiração veio ontem, quando peguei um carro de aplicativo, saindo do Ipiranga e retornando para a minha casa, na Vila Mascote, ambos os bairros na zona sul de São Paulo. Uma corrida de 11 km. Havia deixado o meu sedã, que tem motor 2.0 turbo de 184 cv, um câmbio espetacular – o melhor componente do carro – de 8 marchas e tração traseira, em uma oficina especializada na marca para a revisão de 60.000 km. Deixarei um bom punhado de reais nessa oficina, inclusive porque as pastilhas traseiras passaram dessa para melhor e talvez (talvez…) tenham riscado os discos.
É uma OPÇÃO. Tenho esse carro porque gosto. Sou, como você, apaixonado por automóveis desde criança. Já contei inúmeras histórias que retratam essa paixão, a ponto de ter conseguido mesclar com o meu único talento profissional (escrever).
A escolha do meu carro envolve racionalmente o pensamento de que terei despesas razoáveis com manutenção preventiva e, na eventualidade de alguma quebra, despesas desesperadoras. Eu sei disso. E escolhi. A verdade, contudo, é que eu tenho condições de arcar com esse risco, entendendo que o prazer ao dirigir que esse carro me proporciona é absolutamente incomparável na faixa de preços que ele se posiciona. Frise bem a frase sublinhada. Ela dará todo o entendimento do objetivo dessa coluna.
O salário do Fernando
Não quero aqui parecer arrogante, longe disso. Só quero fazer uma analogia com o motorista do app que me levou de volta para casa. O Fernando é dono de um BYD Dolphin Mini. Por ene motivos, ele ficou desempregado e sem um puto no bolso. Restava alugar um carro e se inscrever na Uber. Trabalhou alguns meses, aprendeu os macetes e concluiu que precisava fugir da locação e comprar seu carro próprio.
Após conversar bastante com outros motoristas do app, informar-se com reportagens na imprensa e ser achincalhado pelos familiares por estar interessado no “carro a pilha”, ele peitou a compra. Lembra que o Fernando não tinha nada no bolso, né? Teve que comprar seu carro sem entrada, em 60 meses. A prestação do financiamento e a parcela mensal do seguro dão quase R$ 4,5 mil/mês.
Sem uma formação acadêmica em matemática, mas muito inteligente, ele se lembrou que o combustível consumido pelo Fiat Mobi que alugava antes dessa compra representava uma despesa mensal de R$ 2,5 mil. “Começo o mês já devendo R$ 7 mil”. Um aparte, aqui entre nós: você sabe quanto fatura um motorista de app? Se rodar por volta de 12 horas por dia, ele fará R$ 300 ou 350/dia, já descontada a fatia que cabe à Uber. Só pra ele.
“Trabalho 26 dias por mês. Se eu estabelecer a meta de R$ 350 no bolso no final do dia, vou faturar R$ 9,1 mil por mês. Ora, se eu começar ao mês já devendo R$ 7 mil, não vai sobrar nada…”
Esse brasileiro, que pertence a uma classe social bem desfavorecida, está sobrevivendo graças unicamente ao seu BYD. Com o Dolphin Mini, que até agora rodou 36 mil km em pouco mais de 7 meses, o Fernando passou a ter uma renda de cerca de R$ 4,6 mil mensais, já debitadas as despesas com o carro. O custo com combustível é zero – ele acorda 4 da manhã e sai caçando carregadores rápidos em São Paulo que não cobrem tarifa. Ah, e a despesa com manutenção do carro… também é zero.
E é aqui que eu retorno ao tema dessa coluna: ao se deparar com uma história como essa, como você tem a coragem de criticar carro elétrico?
A culpa é do síndico…
Atendo profissionalmente como assessor de imprensa a duas marcas: Porsche e GAC. Acho que nem o “tio do churrasco” mais sem noção do planeta teria a ousadia de escrachar com Macan, Taycan etc. Ninguém seria tão estúpido, não? Mas a GAC, devido à origem chinesa, recebe esse tipo de carinho.
Pois vivi uma experiência curiosa aqui em casa. Logo que assinei contrato comecei a pegar os carros da marca para conhecê-los. Como o meu trabalho seria divulgar as novidades e os produtos da GAC para a imprensa especializada em automóveis, nada mais óbvio do que testá-los inicialmente eu mesmo.
Vim um dia para casa com o Aion V. Diferentemente de outras marcas chinesas que extrapolam nos números de ficha técnica, a GAC é mais comedida: apenas 204 cv. Apenas 24,5 kgfm de torque. Contém ironia, tá? O SUV da minha esposa tem 166 cv e 20,5 kgfm, só para constar. Rodamos todo o final de semana com o carro. E ela guiou metade do tempo. O Aion V tem autonomia Inmetro de 389 km, o que, na prática, significa cerca de 500 km em trechos urbanos.
Esse carro custa R$ 220 mil, ou seja, tá ali na mesma faixa de Jeep Compass, Toyota Corolla Cross, VW Taos etc. Gente, não é porque eu trabalho com a marca: nenhum desses concorrentes têm mais espaço, equipamentos e requinte que o Aion V. Design charmosíssimo, bancos dianteiros com massagem, multimídia de quase 15 pol, pacote ADAS completíssimo, Thermovault no console central (geladeira/forninho que varia de -15ºC a 50ºC), um silêncio absoluto ao rodar. Não dá para comparar. O Aion V é superior em tudo. E vou te dizer que a Priscilla só não abraçou esse carro (ainda) porque o prédio onde moro não possui carregador de carro elétrico.
“Ah, Edu, mas o Aion V não tem a mesma dinâmica de dirigibilidade que um VW Taos”. Pode ser. Mas lembra do exemplo do Fernando, da Uber? Aqui cabe também: o carro não é para mim. É para a Priscilla. Ela não tem, como 70% ou 80% dos compradores de carros no Brasil, qualquer ambição por buscar um handling esportivo! E você, como eu, que pertence à minoria de apaixonados por carros, não tem o direito de escrachar carro elétrico se os demais compradores têm necessidades e ambições diferentes!!
E eu nem vou entrar no mérito de que carro elétrico não proporcione prazer ao dirigir. A pilotagem técnica que você começa a empreender ao usar o freio regenerativo é sensacional. Sem “patriotada”: acho divertido mesmo!
Em resumo, se você não gosta, não compre pra você. Como eu não compraria para mim – o meu tá lá na oficina do Ipiranga, lembra? Só que recusar a obviedade de que o carro elétrico é, sim, uma alternativa genial para milhares de pessoas que precisam trabalhar na lida diária ao volante, através da economia no custo por km rodado, ou mesmo que só privilegiam conforto, design, acabamento premium e requinte em um carro, beira a estupidez. Tipo piadinhas dos anos 80.
Engula essa. E pare de ser o “tio do churrasco”.
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