Combustível adulterado: como identificar e onde denunciar

A Polícia Federal revelou recentemente, por meio da Operação Carbono Oculto, a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis. O grupo estaria envolvido em fraudes bilionárias, utilizando postos clandestinos, usinas de etanol, distribuidoras e transportadoras para adulterar combustíveis, lavar dinheiro e sonegar impostos. A investigação identificou irregularidades em oito estados e aponta que a facção controla mais de 1,1 mil postos no Brasil.

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Diante desse cenário, cresce a importância de o motorista estar atento aos sinais de fraude. Abastecer em um posto irregular pode não só danificar o veículo como também financiar o crime organizado.

Rede 13R, conhecida por imitar os postos Petrobrás — Foto: Reprodução/TV Globo

Como identificar um posto suspeito

Segundo o Instituto Combustível Legal (ICL), os criminosos muitas vezes recorrem a “postos clones”, imitando redes famosas como Petrobras, Shell e Ipiranga. As fachadas usam cores, logotipos e até uniformes similares para enganar os clientes. Preços muito abaixo da média de mercado também devem acender o alerta.

Outros indícios incluem:

  • Postos que aceitam apenas dinheiro ou transferências bancárias;
  • Estabelecimentos sem registro visível da ANP;
  • Bombas que não informam corretamente a origem do combustível.

Gasolina adulterada: riscos e sinais

A adulteração mais comum da gasolina é o excesso de etanol acima do limite legal (27%) ou a adição de solventes como metanol. Esse último é altamente tóxico, podendo causar problemas graves de saúde e danos severos ao motor.

Sinais que podem indicar gasolina adulterada:

  • Aumento repentino do consumo;
  • Perda de potência;
  • Dificuldade para dar partida;
  • Luzes de alerta no painel;
  • Cheiro forte de solvente ou querosene no escapamento.

Etanol adulterado: riscos e sinais

O etanol geralmente é adulterado com água. Nesse caso, o carro pode apresentar falhas graves de desempenho, especialmente nos motores flex.

Indícios de adulteração incluem:

  • Grande perda de eficiência;
  • Problemas em bicos injetores;
  • Funcionamento irregular do motor.

A ANP exige que todos os postos possuam termodensímetro, equipamento instalado nas bombas de etanol para verificar a conformidade do combustível. O consumidor tem o direito de solicitar o teste.

Onde denunciar

Motoristas que suspeitarem de irregularidades podem denunciar de forma anônima nos canais da Agência Nacional do Petróleo (ANP) ou no portal do Instituto Combustível Legal (ICL). Também é possível acionar órgãos de defesa do consumidor, como o Procon.

Fiscal da ANP faz teste de combustível em posto. Foto: Divulgação

Fiscalização sem verbas

A Agência Nacional do Petróleo (ANP), responsável pela fiscalização dos postos e pela verificação de combustíveis adulterados, enfrenta cortes orçamentários há mais de uma década. Nos últimos 11 anos, a autorização para despesas discricionárias caiu de R$ 749 milhões em 2013 (corrigido pelo IPCA) para apenas R$ 134 milhões em 2024 — uma redução de 82%.

Em 2025, com o decreto de redução de despesas anunciado pelo governo federal em maio, houve ainda um bloqueio de R$ 7,1 milhões e um contingenciamento de R$ 27,7 milhões. O valor para custear despesas discricionárias caiu de R$ 140,6 milhões para R$ 105,7 milhões.

O impacto foi direto no Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis (PMQC), que chegou a ser suspenso em julho e só foi retomado em agosto, mas ainda com recursos reduzidos. O PMQC, normalmente conduzido por instituições de pesquisa ligadas a universidades, é terceirizado e funciona como etapa preliminar da fiscalização: sorteia os postos, coleta amostras e indica onde a ANP deve agir.

Sem ele, parte dos indícios de adulteração deixa de ser verificada. Procurada pelo UOL Carros, a ANP afirma que a fiscalização nos postos não foi afetada. Porém, especialistas apontam o contrário. Para Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal (ICL), a interrupção do programa fragiliza a previsibilidade regulatória e abre brechas para adulterações:

“Com a paralisação do programa, abre-se espaço para que adulterações passem despercebidas, aumentando o risco de motores danificados, emissões mais altas e perda de confiança do consumidor na bomba. Além disso, a interrupção fragiliza a previsibilidade regulatória e dá um sinal perigoso de tolerância em relação à qualidade dos combustíveis”, afirma.

Mais do que prejuízos diretos ao bolso do consumidor, a falta de fiscalização coloca em xeque também o plano do governo com a indústria automobilística para a descarbonização. Isso porque combustíveis adulterados fazem os veículos emitirem muito mais poluentes do que o permitido pelas normas ambientais atuais. De nada adianta criar novos programas e exigir metas mais rígidas das montadoras se não há combustível de qualidade para que os motores funcionem corretamente e emitam dentro dos limites legais. Cortar verbas de fiscalização, portanto, vai na contramão dos objetivos ambientais e de saúde pública.

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