Cuidado: você pode estar sendo roubado ao abastecer o carro!

Cliente pode ser roubado em bomba adulterada e outros golpes. Para pegar esses ladrões, a ANP vai ter que mudar seu padrão sem avisar

Não é de hoje que alguns desonestos donos de postos de combustíveis ficam criando maneiras de te entregar menos combustível de qualidade e cobrando mais por isso. Sabemos que, nesse meio, há uma grande maioria de empresários sérios e honestos, que vendem produtos de qualidade, entregando exatamente o que foi comprado. Mas, infelizmente, há uma minoria de desonestos que fazem o possível e o impossível para misturar muitas porcarias ao álcool, gasolina ou diesel para aumentar seu volume.

Outros, ainda, adulteram as modernas bombas de combustíveis eletrônicas, de maneira que o visor mostre uma quantidade de litros vendidos, e, na realidade, bem menos do que aquilo comprado esteja indo parar no tanque do carro. Há postos ainda mais ladrões que utilizam os dois recursos: aumentar o volume com misturas no combustível e burlar as bombas eletrônicas para marcarem mais do que entregam. E isso não é de hoje…

Eu, ao longo de minha vida profissional testando carros, já vi de tudo nesse mundo de falcatruas na hora do abastecimento. Cheguei a flagrar, até mesmo, frentistas de postos que roubavam combustível para si, aproveitando de motoristas distraídos, que não descem para olhar no abastecimento (ficam no celular, ouvindo música, conversando com o passageiro…). O esquema era o seguinte: fingiam colocar a válvula de reabastecimento no bocal do tanque, mas, com os pés, empurravam um balde vazio, que ficava geralmente ao lado da bomba e, aproveitando a distração do motorista, esses frentistas roubavam parte do combustível despejando o líquido no tal balde.

Depois de colocar alguns litros no balde, que era empurrado para perto da bomba novamente, o bico abastecedor voltava para o bocal do tanque. De dentro do carro, o inocente motorista olhava a bomba e podia ver que a quantidade comprada era aquela que teoricamente havia sido entregue no tanque do seu carro, sem saber do esquema do balde. Pagava, ia embora, sem saber que havia perdido alguns litros de combustível com a tal falcatrua. Isso é furto!

Uma época, estava com uma VW Saveiro de testes, quando parei em um posto, pedindo para completarem o tanque. O carro estava na reserva. A frentista encheu o tanque como eu pedi, mas estranhei o fato que, pelo visor da bomba, mais de 58 litros haviam entrado, sendo que a Saveiro não tinha mais que 55 litros totais de capacidade do tanque. Questionei a funcionária: como poderia ter entrado 58 litros em um tanque que cabem só 55? E olha que eu cheguei com o carro andando, com alguns litros ainda restantes no tanque.

Era claro que aquela bomba estava adulterada, e seu marcador de volume registrava a mais do que realmente havia entregado. Essa diferença eu paguei, e não me foi entregue. Outro furto! Nesse caso específico, pedi minha nota fiscal e fiz uma reclamação formal à ANP (Agência Nacional do Petróleo), para que aquele distribuidor fosse fiscalizado o quanto antes, pois suas bombas estavam alteradas.

Noutra situação, quando estava com a minha esposa ao volante, o frentista, claro que de maneira proposital, pegou a válvula de uma bomba que estava para trás, que não conseguíamos ver bem o visor. Pedimos R$50 de combustível, e ficamos de olho: quando chegou em R$40, o atendente desligou a bomba, que zerou o visor. Isso de forma bem rápida, para não percebermos. Na hora da cobrança, pediram para que pagássemos os R$50, mas, como já tínhamos percebido a fraude, contestamos. O frentista se fez de desentendido, cobrando no final apenas os R$40 que havia ido para o tanque, argumentando que “estava distraído”. Claro, mais um golpe.

As bombas eletrônicas passaram a ter em seu interior dois programas: um que roubava 10% do volume abastecido (sem mostrar no visor, claro), e o outro que marcava exatamente o que havia sido comprado. Os postos ladrões funcionavam sempre no modo errado, e quando chegava uma fiscalização da ANP, que acontece em todo o país, o gerente do posto apertava botões em um pequeno controle remoto em seu bolso, como os de portões eletrônicos, e todas as bombas voltavam para o modo correto. Muito mais postos do que você imagina utilizavam essa prática, que permitia até mesmo um preço bem atrativo para atrair um grande público.

De olho nesses postos, a ANP começou a usar carros normais, sem se identificar nas fiscalizações. Como o padrão da agência é de 20 litros, eles escondiam no tal carro um reservatório com exatamente 20 litros, que ficava conectado ao bocal do carro. O motorista fiscalizador chegava ao posto de forma anônima, pedindo 20 litros de combustível. Depois do abastecimento, aí sim anunciavam a fiscalização, pegando todos de surpresa.

Através desse artifício da ANP, dezenas, ou até centenas de postos foram flagrados furtando combustível do consumidor. Alguns foram fechados, outros multados de forma severa, porque nesse caso as bombas eram desmontadas, deixando claros seus chips adulterados.

Agora, os malandros de plantão já foram mais além, com outra maneira de nos enganar: eles criaram um programa para as bombas eletrônicas, que só começam a roubar depois dos 20 litros. Dessa forma, mesmo que a ANP chegue ao posto com uma fiscalização disfarçada, os tais 20 litros do teste serão completamente entregues pela bomba. A falcatrua começa a partir daí, fazendo com que o posto desonesto se passe por correto. Mesmo tendo reduzido as roubalheiras e os crimes de furto de combustível, eles continuam vitimando principalmente quem costuma encher o tanque. O quanto é roubado? Vai depender da ganância do dono do posto desonesto.

Para pegar esses ladrões, a ANP vai ter que mudar seu padrão sem avisar. Com um novo recurso, ela vai pegar muito posto de “calças curtas”. Como nós, consumidores, vamos nos livrar dessa nova malandragem, além da tradicional adulteração de combustível: adulteração não tem jeito, e nesse caso você só descobre se o seu carro começar a falhar ou até mesmo parar de funcionar, mas, quanto ao roubo das bombas eletrônicas, a dica é evitar abastecer com mais de 20 litros.

Se você precisa encher o tanque para uma viagem longa, existem dois recursos: o primeiro é, quando completar os primeiros 20 litros, mande o frentista desligar a bomba, iniciando em seguida outro abastecimento de 20 litros. Assim em diante, até completar. Ou então, vá colocando 20 litros em diferentes postos. Complicado, mas certo para não ser roubado.

Os postos de grandes redes são menos propensos a essas malandragens, afinal tem um nome de peso a zelar. Aqueles sem bandeira não tem compromisso com ninguém, nem com marca alguma, e ninguém é capaz de saber o que é entregue pelas suas bombas. Essa pode ser uma grande dica: pague um pouco mais, mas tenha um combustível de qualidade, o que melhora o consumo e desempenho do carro, e sem riscos de danos futuros ao sistema de alimentação. Sem contar que, dependendo do quão ruim for o combustível, seu carro pode te deixar na mão logo depois, como já me aconteceu também.

Por final, outra dica importante é que você desça do carro na hora de abastecer, acompanhando o trabalho do frentista e a bomba operando. Evita dois dos golpes que contei acima: o do balde e o da menor quantidade de combustível abastecido. Me lembro de ouvir de frentistas conhecidos a seguinte frase: “se o motorista não desce do carro, é porque ele não está nem aí com o que eu estou fazendo, e por isso eu faço o que quiser!”. E, pasmem: em um posto com a bomba adulterada para entregar 10% de combustível a menos, que venda cerca de 300 mil litros por mês, o lucro mensal com os roubos será de mais de 30 mil litros de combustível.

Esse volume, entre álcool e gasolina, rende fácil ao desonesto empresário dono de posto uma cifra extra maior que R$100 mil. Valor altíssimo, que nos é roubado. Todo cuidado é pouco, reclamando sempre que desconfiar (peça a nota fiscal nesses casos!), e exigindo novas formas de fiscalização para a ANP.

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