Pra quem a Ferrari Luce foi feita

Design é como futebol. A gente pode não entender bulhufas com profundidade. Mas sempre se vê no direito de dar pitaco, palpite, opiniões convictas sobre o que é certo ou errado, bonito ou feio. Ótimo que seja assim, inclusive.

Como você, eu achei a Ferrari Luce um verdadeiro escárnio. A primeira opinião que vi a respeito da Luce foi de um jornalista automotivo que respeito muito, hoje produtor de conteúdo, o João Anacleto, do canal A Roda. Ele disse mais ou menos o seguinte: “talvez seja o primeiro produto de mal gosto criado na história da Ferrari”. Tendo a concordar com ele. Eu e as torcidas do Palmeiras e do Flamengo, unidas.

Vivemos na mesma bolha. Pense bem. Nós, brasileiros, consumimos historicamente os mesmos carros, temos mais ou menos o mesmo padrão estético, fomos formados na mesma escola com as mesmas influências culturais e artísticas. É normal que todo o seu ciclo de amizades, conhecidos, grupos de WhatsApp e afins tenham decretado que essa Ferrari é horrorosa.

Mas calma. Não é bem assim.

Quando você se debruça a buscar informações reais sobre a repercussão dessa primeira aparição, e a interpretá-las, o primeiro modelo 100% elétrico da Ferrari dividiu o mundo em dois blocos irredutíveis. Vamos falar deles.

Quem odiou

De um lado, entusiastas e acionistas digerem o peso de uma silhueta crossover com cinco lugares, concebida pelo designer britânico Jony Ive, que havia trabalhado na Apple. O ex-presidente Luca di Montezemolo teria exclamado algo como “tirem o Cavallino Rampante do capô desse carro”. Bem italiano. Na Bolsa de Milão, as ações da Ferrari despencaram 8,3% após as primeiras críticas.

Muitos críticos acusaram o modelo de parecer um iPhone, limpo e minimalista, desprovido daquela agressividade passional que faz o coração acelerar só de olhar e que é um traço característico do casamento Ferrari e Pininfarina ao longo das últimas décadas.

O interior traz três displays circulares digitais inspirados na década de 1970. Contudo, a central multimídia central salta aos olhos como um tablet genérico apoiado em uma haste. Para quem cresceu cultuando os contornos esculturais dos modelos de Maranello, a Luce carece, de fato, de traços mais elaborados.

Com baixíssimo coeficiente de arrasto aerodinâmico (Cx de 0,254), primando pela eficiência, a primeira Ferrari da história com propulsão 100% elétrica e carroceria para 5 pessoas, de fato, agradou a poucos. Poucos dentre os que convivem conosco, diga-se.

Quem defende

Do outro lado, a engenharia entregou números avassaladores amparados por parcerias até com a Nasa, que permitiram um conjunto de apenas 2.260 kg após empregar largamente alumínio aeroespacial na construção da carroceria. São quatro motores elétricos, um por roda, que totalizam 1.050 cv de potência no modo boost. Ela acelera de 0 a 100 km/h em apenas 2,5 segundos. A arquitetura de 800 volts suporta recarga rápida de até 350 kW e garante uma autonomia de 530 km no ciclo europeu. No papel, o Luce reescreve as regras de eficiência.

Ah… quando eu disse que havia poucos defensores da Luce, quem sabe não dê pra acrescentar nessa conta… tipo… 1,4 bilhão de pessoas?

Aqui segue apenas uma suposição. Mas acredito que deve haver alguns milhares de chineses milionários que esfregaram as mãos em êxtase ao conhecerem a Luce. Sim, eu vejo muito da escola chinesa de design nessa Ferrari. Mais do que isso: acabei de voltar de lá, em abril. Eu vi muitos carros nas ruas de Pequim exatamente com essa proposta estilística: crossover futurista com linhas orgânicas e minimalistas. Não é novidade isso pra eles. Pode ser pra gente, mas pra eles é pinuts.

E aí coloco a pergunta: a Luce foi concebida para mim, para você, para o Montezemolo, ou para os chineses?

Lembra do Panamera?

Dou um exemplo relativamente semelhante e recente. Eu já trabalhava como jornalista automotivo e vi isso acontecer: quando a Porsche lançou o Panamera, em 2009, houve uma reação bastante dura dos tradicionais entusiastas. Um dos principais motivos era justamente a percepção de que a Porsche estaria “cedendo” às demandas de mercados emergentes e do Oriente Médio, além da China, em busca de volume e lucro.

Na época, muitos puristas viam a fabricante de Stuttgart como uma fabricante quase “sagrada” de carros esportivos de dois lugares ou 2+2 compactos, especialmente por causa do legado do Porsche 911. Um sedã grande, de quatro portas, com foco em conforto parecia, para esse público, uma traição à essência da marca.

Depois de 400 ou 450 mil unidades vendidas… quem estava certa? A Porsche ou os entusiastas?

Ou faço outra pergunta, até de certa forma grosseira, mas que injeta uma dose cavalar de pragmatismo em quem não acordou da magia que era brincar com carrinhos no tapete da sala: “quem paga as contas: legado ou novas vendas?”

Quem decide é quem compra, não quem critica

Eu não estou defendendo a Luce. Só estou lançando um olhar mais corporativo para a decisão da Ferrari em lançá-la com essa proposta final.

Só propus essa pensata para que a gente não tenha sempre essa sensação arbitrária de achar que o nosso gosto deve prevalecer sobre a razão. E a razão hoje, meu amigo, é que a China consome 30 milhões de automóveis por ano, inclusive milhares de Ferrari. Quem quiser continuar saudável no tabuleiro do mercado automotivo mundial, PRECISARÁ fazer carro que agrade chinês. Punto e basta.

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