Crescentes em várias capitais do Brasil, as infrações por uso de celular ao volante são consideradas gravíssimas desde 2025
O uso do celular ao volante segue como um dos principais desafios da segurança viária no Brasil. Mesmo com fiscalização mais rígida, aumento nas multas e campanhas educativas, os flagrantes continuam crescendo em diferentes regiões do país, reforçando o tamanho do problema nas ruas e estradas brasileiras.
Em Belo Horizonte, por exemplo, as autuações por uso de telefone enquanto dirige cresceram 27% no primeiro semestre de 2025 na comparação com o mesmo período do ano anterior. Segundo dados da BHTrans, cerca de 20 mil infrações foram registradas apenas nos seis primeiros meses do último ano. No Distrito Federal, 95.712 motoristas foram autuados em 2025 por utilizar o celular enquanto dirigiam. O número representa crescimento de 24% em relação ao ano anterior, reforçando a tendência de aumento dos flagrantes em diferentes regiões brasileiras.
O avanço das infrações também aparece em Goiânia. Conforme dados da Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito (SET), a capital goiana registrou 40.077 autuações relacionadas ao uso de celular ao volante ao longo de 2025. Em 2026, até o dia 15 de março, já haviam sido contabilizadas 5.667 infrações, evidenciando a continuidade do problema.
Na capital paulista, o cenário também preocupa. Um levantamento do portal Mundo do Automóvel para PCD apontou mais de 127 mil infrações relacionadas ao uso do celular durante a condução. Entre os flagrantes, dirigir segurando o aparelho aparece como a principal ocorrência, somando 68.587 autuações.
Os registros de motoristas digitando no celular também chamam atenção, com 50.802 infrações contabilizadas. Já os casos de condutores flagrados falando ao telefone chegaram a 8.501 ocorrências, representando aumento de 5%. Os números reforçam que diferentes formas de utilização do aparelho continuam recorrentes no trânsito paulistano.
A preocupação vai além dos números das multas. Dados da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (ABRAMET) apontam que cerca de 30% dos motoristas brasileiros usam o celular regularmente ao dirigir, enquanto o Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) afirma que o uso do aparelho aumenta em quatro vezes o risco de acidentes.
Os reflexos aparecem diretamente nas estatísticas nacionais. Segundo dados do DENATRAN, o Brasil registrou 1.687 mortes em acidentes ligados ao uso de celular em 2025. O número corresponde a 8,2% do total de 20.450 mortes no trânsito registradas no país no período.
Pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o uso do celular ao volante é classificado como infração gravíssima desde 2025. A penalidade prevê multa de R$ 293,47 e sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Apesar disso, a legislação permite algumas situações específicas. O uso do aparelho fixado corretamente no painel para aplicativos de navegação, por exemplo, não gera punição, desde que o motorista não manuseie o celular enquanto conduz o veículo.
Fiscalização ganha reforço com câmeras e inteligência artificial
O combate ao uso de celular ao volante ganhou um novo aliado em 2026: a inteligência artificial. Os Detrans de São Paulo e Rio de Janeiro implantaram sistemas de monitoramento capazes de identificar motoristas sem cinto de segurança e utilizando o telefone enquanto dirigem. Os equipamentos operam com precisão de 94% na identificação de motoristas utilizando celular ao volante, índice validado em testes realizados pela Universidade de São Paulo (USP).
O programa começou em São Paulo no dia 1º de fevereiro de 2026, inicialmente na Avenida 23 de Maio. Segundo o Detran-SP, o sistema registrou 87.450 multas nos primeiros 90 dias de operação. Ainda conforme o órgão, uma em cada quatro pessoas flagradas pelas câmeras estava cometendo infrações relacionadas ao uso do celular ou ausência do cinto.
Com a expansão da fiscalização eletrônica, o volume de autuações nas duas capitais cresceu quatro vezes entre fevereiro e maio de 2026. O diretor-geral do Detran-SP, Wagner Fernandes, anunciou posteriormente a ampliação do sistema para 50 avenidas paulistas.
O sistema funciona 24 horas por dia com sensores infravermelhos e consegue capturar placa, modelo e cor do veículo em poucos instantes. O algoritmo foi treinado com 1,2 milhão de imagens de condutores usando o celular, permitindo reconhecer o aparelho mesmo quando o motorista tenta escondê-lo próximo ao volante. A taxa de falso positivo divulgada é de 3,2%.
No Rio de Janeiro, o sistema começou a operar em 1º de março de 2026. Conforme o Detran-RJ, foram aplicadas 47.500 multas em apenas 60 dias na zona sul carioca, com equipamentos instalados em vias como Avenida Atlântica, Avenida Vieira Souto e Lagoa Rodrigo de Freitas. De acordo com André Lazaroni, secretário de Transportes do Rio, os acidentes envolvendo uso de celular caíram 18% na região após a implantação das câmeras inteligentes.
Distração ao volante segue entre as maiores ameaças no trânsito
Especialistas apontam que o uso do celular compromete diretamente a atenção do motorista e reduz sua capacidade de reação diante de situações inesperadas. Mesmo ações consideradas rápidas, como responder uma mensagem ou olhar uma notificação, podem tirar o foco da condução por segundos decisivos.
Dados da Polícia Rodoviária Federal indicam que a ausência de reação do condutor está entre as principais causas de acidentes fatais nas rodovias brasileiras. Esse comportamento pode estar relacionado ao uso do celular, excesso de velocidade, ultrapassagens indevidas e outras formas de distração.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), utilizar o celular enquanto dirige aumenta em 400% o risco de acidentes e coloca em perigo não apenas quem está ao volante, mas também pedestres, ciclistas e outros motoristas.