História da VW Saveiro: a primeira fase, quadrada

No início dos anos 80, as fábricas se apressavam para preparar pequenas picapes derivadas de carros de passeio. Naquela época veio Ford Pampa (derivada do Corcel), o sucesso Fiat Fiorino (vinda do 147), a VW Saveiro, fruto direto da linha Gol e, depois, a Chevrolet Chevy 500 (parente do Chevette). Eram modelos destinados à pequenos empresários, frotistas e afins, para quem não queria uma caminhonete. Mas, nesse lote, a VW Saveiro se destacava, justamente pelo perfil mais jovial e para lazer.

Essa proposta, aliás, até ajuda a explicar seu nome de batismo: Saveiro, na realidade, é uma pequena embarcação que leva carga e pessoas, quase como uma jangada. Ou seja: assim como a embarcação, a picapinha da Volks era apta ao trabalho e ao lazer. Seu lançamento ocorreu em setembro de 1982, há quase 44 anos, bem depois da Fiat Fiorino (1980), mas ainda antes da Chevy 500 (final de 1983).

Descobriram, na época, um belo de um filão no mercado automotivo nacional: essas picapinhas compactas, mais urbanas, e com dotes de carros de passeio. Justamente assim era a VW Saveiro de 1982 (linha 1983): era, na realidade, uma parente da perua Parati (alguns a apelidavam de “Parati Cortada”), com quem compartilhava sistemas de direção, suspensões e freios, além da plataforma com cerca de 2,36 m de distância entre-eixos. Eram componentes e medida compartilhados com toda a linha Gol, aliás.

De início, a escolha para o motor se deu pelo 1600 arrefecido a ar com dupla carburação, emprestado do Brasília. A perua Parati e o sedan Voyage, na ocasião, já apostavam nos motores a água, mas, no caso da picapinha Saveiro, a Volks pensava que o conjunto a ar, mais conhecido pelo consumidor, teria maior aderência. Era um motor muito barulhento, e que não fazia milagres com seus 54 cv na versão a gasolina, ou 51 cv a etanol. Números oficiais da época falavam em intermináveis 19,4 segundos na prova de aceleração de 0 a 100 km/h, com velocidade máxima ao redor dos 130 km/h.

Se com o 1600 a ar a VW Saveiro 1983 já penava no desempenho, era lógica a ausência da opção 1300 a ar na sua linha. Ainda assim, não negava fogo quando o assunto era capacidade de carga (ótimos 570 kg para a época), ou mesmo tamanho da caçamba (870 litros). Como soluções interessantes, trazia estepe atrás do banco do passageiro (liberando espaço no cofre do motor), e espaço atrás do banco do motorista capaz de acomodar até mesmo uma pequena mala de viagem. Mais uma vez, deixava clara sua proposta mista entre trabalho e lazer, algo reforçado pelo uso de suspensões num esquema de carros de passeio: McPherson na frente e molas helicoidais atrás.

Era oferecida, na época, com as mesmas versões do VW Gol: S e LS. Com ele, também compartilhava vários equipamentos de série, alguns até de comodidade e conforto, algo não tão comum em caminhonetes. Rodas de liga-leve eram opcionais, mas assoalho acarpetado, relógio no painel, ventilador elétrico, lavador elétrico do parabrisas, espelho nos parassóis, ou protetor de vidro traseiro eram de série.

A primeira grande mudança vinha na linha 1985. Ali chegava um novo design, mais alinhado aos demais modelos da família Gol (faróis maiores, parachoques mais envolventes, interior atualizado e afins), além do importante motor refrigerado a água: era o 1.6 MD-270, emprestado do Passat, com carburador de corpo duplo, 72 cv na versão a gasolina, 81 cv na versão a etanol, e performance bem mais viva. Na ocasião, pela ficha técnica, já baixava o tempo de 0 a 100 km/h para menos de 13 segundos. Mantinha, porém, o câmbio de quatro marchas, assim como acontecia no Gol.

Passado mais ou menos um ano, graças a estreia da família de motores AP, e a busca da VW por uma motorização mais atual na sua linha, a Saveiro 1986 veio com o moderno AP-600. Era um 1.6, mas com diâmetro maior de pistão, menor curso, bielas mais longas, e cabeçote com novo comando de válvulas, que permitia o motor girar mais, e trabalhar de forma mais suave e elástica. Na picapinha, crescia a potência para notáveis 76 cv na versão a gasolina ou 85 cv na versão a etanol, em que pese as limitações do mesmo câmbio de quatro velocidades (a 5ª marcha chegava depois).

Dali em diante, só festa: mesmo com a novíssima geração do Fiat Fiorino (agora derivada do Uno), e atualizações na Ford Pampa e Chevy 500, a VW Saveiro continuava como uma das picapinhas mais vendidas do mercado nacional. Cada vez mais, graças a atualizações no interior (mais confortável e moderno, principalmente), e pacote de itens de série ampliado, ela era reconhecida pela robustez, confiabilidade e a boa e velha proposta mista: servia como ferramenta de trabalho de segunda a sexta, e aos finais de semana permitia uma viagem para a praia sem sofrimentos.

Na segunda metade dos anos 80, mais precisamente nos últimos anos da década, nascia a Autolatina, fusão entre VW e Ford. Por isso, ao redor de 1990, a VW Saveiro passou a ter a curiosa opção do motor 1.6 CHT de origem Ford (e projeto Renault), rebatizado pela Volks como AE-1600 (sigla para “Alta Economia”). Tinha 73 cv de potência e bom torque em baixas rotações, casado já a um câmbio com cinco marchas, então servia como uma luva nas versões mais baratas da Saveiro (especialmente na CL), aquelas realmente destinadas ao trabalho. Nas mais caras, o AP-600, mais potente e moderno, seguia no catálogo.

Nessa carroceria quadrada, de primeira geração, a VW Saveiro foi produzida, em sua grande maioria, com motores de 1.6 litro. Teve, em versões mais caras a partir da linha 1987, o AP-800, 1.8 mais potente e forte, com mais de 90 cv de potência. Esse mesmo motor, aliás, foi aplicado na memorável versão Sunset da picapinha, já no início dos anos 90, quando seu viés descolado, para lazer, ficou mais claro e evidente: ela tinha adesivos decorativos, saias laterais, rodas de liga-leve, interior com volante de quatro raios e, claro, o motor AP 1.8 acoplado ao câmbio de cinco marchas.

Também nessa época, ao redor de 1987, houve o mito da VW Saveiro a diesel, vendida no mercado brasileiro com o mesmo motor da Kombi a diesel (um 1.6 com aproximadamente 52 cv de potência). Há quem diga que esses raros exemplares eram apenas adaptações feitas por concessionários na época (inclusive em unidades 0 km), enquanto outra teoria aposta em carros destinados à exportação para países vizinhos (que permitiam modelos de passeio a diesel) que tiveram exemplares comercializados no mercado brasileiro através de liberação obtida pela própria VW junto ao governo da época.

Vale falar que, ao longo desses anos, a VW Saveiro foi passando por atualizações visuais: em 1987 ganhou cara mais moderna (similar à do Gol GTI) e interior atualizado, e em 1991 recebeu a dianteira mais afinada e elegante, apelidada de “chinesa”, por conta dos faróis estreitos e integrados à dianteira. Na ocasião, ainda tinha parachoque mais fino, ganhando o mesmo do Gol (em plástico envolvente, embutido na frente) algum tempo depois. Esse, aliás, foi o design mantido na carroceria quadrada da VW Saveiro até sua saída de linha definitiva, em 1997.

Quando a VW Saveiro completou 15 anos de mercado, mais ou menos em setembro de 1997, veio a novíssima geração da picape: arredondada, derivada do VW Gol “bolinha”, e com novos parâmetros de dirigibilidade, conforto, silêncio e afins. Mas, a história dessa segunda fase, que durou até 2009, fica para a próxima coluna…

Veja mais

Postagem Relacionada