Cobra cega

Na semana passada, surgiu a notícia de que a Dodge voltaria a fabricar o Viper. O muscle car lançado em 1989, inspirado no Shelby Cobra, voltaria em 2019 para marcar os 30 anos de seu lançamento. A história viralizou, com direito a detalhes minuciosos como a troca do motor V10 8.4 pela unidade V8 Hemi 6.2 do Challenger. Até este escriba se deixou levar pela hipótese do retorno do carro norte-americano mais legal desde o Buick GNX.
Acontece que Sergio Marchionne, o homem forte da Fiat-Chrysler, fez uma longa apresentação, que faria inveja a Fidel Castro, para detalhar o plano estratégico do grupo para os anos 2018 e 2022. Na palestra, o executivo detalhou os passos que cada marca dará. Chegou até a mencionar sobre a necessidade de a Dodge se reafirmar como selo de alto desempenho dentro do grupo, mas rechaçou veementemente o retorno do Viper.
O argumento: a última geração não vendeu o suficiente para viabilizar um possível retorno. No entanto, deixou uma ponta de esperança ao dizer que, se a FCA encontrar uma maneira de torna-lo vendável, aí o projeto receberia polegar erguido.
Marchionne deixou muita gente chateada com sua declaração, mas fato é que o executivo não quer saber se o carro é legal, truculento e canta pneu. Na verdade, ele precisa que seu carro seja lucrativo, pois tem que prestar conta para o acionista.

A serpente

Seja como for, o Viper se tornou um dos grandes ícones da indústria norte-americana. Seu nascimento em 1989, foi uma ideia de Lee Iacoca, um dos grandes gênios da indústria do automóvel, e tinha como objetivo revitalizar a desgastada imagem do Grupo Chrysler.
O Viper, em suas três gerações, foi um automóvel excentrico. Seu motor V10 8.0 era um gigante retirado de um caminhão. O propulsor entregava na primeira geração da víbora 400 cv. Hoje, é um volume que pode ser conseguido por um motor compacto como o TFSI 2.5 da Audi, que equipa o RS3. Mas em 1989 era muita potência.
Por ser gigantesco, o bloco ocupava muito espaço na carroceria e empurrou o “cockpit” para trás. O motorista se acomodava praticamente sobre o eixo traseiro.
O visual do Viper impressionou e impressiona até hoje. Comprido, baixo, com para-brisas curto, um santo-antônio e traseira arrebitada, era uma releitura moderna do Cobra de Shelby. A primeira safra do muscle car era totalmente despojada de qualquer luxo, inclusive itens triviais como maçanetas, janelas. Ele também não tinha teto. Assim, dias de chuva ou sol forte não era os mais indicados para a serpente mostrar seu rugido.
Com o passar dos anos, ele foi ganhando “proteções” contra vento e chuva. Sim, umas janelinhas destacáveis e uma capota improvisada.

GTS

Em 1996, a Dodge lançou o Viper GTS, versão cupê que também tinha inspiração nas criações de Carrol Shelby, mais precisamente no Shelby Daytona. Tratava-se de um carro lindo, imponente e ainda mais musculoso, com teto ondulado nas laterais. O V10 foi reajustado para 450 cv.
O GTS se juntou ao RT10 (aberto), que continuava espartano ao extremo, as janelas e maçanetas só surgiriam mais tarde, por volta de 1998. Assim como aconteceu no bólido do preparador texano, a nova carroceria otimizou a aerodinâmica do Viper e não demorou para surgir versões de competição que correriam em categorias de Turismo.
Esse carro foi meu sonho de adolescência, tal como a ex-paquita Luciana Vendramini. O Nirvana seria dar um rolê com ela à bordo do GTS ouvindo “Eu quero ver o oco”!

Segunda geração

Em 2002, surgiu a segunda geração, com carroceria aberta e fechada. O RT10, perdeu o santo-antônio e ganhou uma capota de lona retrátil e o GTS ficou ainda mais “bombadão”. O V10 também cresceu. Os oito litros do bloco pareciam não ser suficientes e os engenheiros elevaram para 8.3, o que elevou a potência para 500 cv. A partir dessa data, o carrão se chamaria Viper SRT-10 Coupe e não mais Viper GTS. O conversível apenas SRT-10.
O algarismo à frente da sigla era uma norma para designar o número de cilindros e identificar as versões nervosas dentro do grupo. O Chrysler 300C tinha sua versão SRT-8, assim como o inexpressivo Neon teve a edição SRT-4. Imagine um cara entrando numa revenda Dodge pensando num Viper e saindo com um Neon?
Em 2008, passou por um sutil facelift e o motor cresceu mais um pouquinho: 8.4 litros e 560 cv, escarrando na cara dos defensores do downsizing. Esta geração sobreviveu até 2010, quando a Dodge, que já tinha se tornado enteada da Fiat, decidiu encerrar a produção.

Terceiro ato

O retorno da víbora aconteceu em 2013. Nessa época, o supercarro deixou de ser Dodge para se chamar SRT Viper. A sigla se transformou em marca, numa estratégia parecida com o que ocorreu com as picapes Dodge Ram, que se tornaram uma marca independente do emblema do carneiro maltês.
Apesar da influência italiana no design, o novo Viper perdeu a versão conversível, mas manteve os principais elementos do muscle car, como o capô longo, a grande saída de ar nos para-lamas e a traseira curta. O V10 8.4 chegou a 650 cv. Entre 2013 e 2017, cerca de 2.300 unidades foram vendidas nos Estados Unidos, desempenho que acabou ceifando um dos carros mais legais e extravagantes da indústria norte-americana.
Não dá para tirar a razão de Marchionne. E quer saber: nem precisa voltar! A Vendramini seguiu o caminho dela e eu o meu, a bordo de um popular inofensivo!

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Marcelo Iglesias Ramos é Jornalista e Designer Gráfico.

Está na área desde 2003, atualmente é o editor do caderno HD Auto, do jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte. Figura presente em todos os lançamentos, salões do automóvel e eventos da indústria automobilística. Para relaxar, tem como hobby escrever para seu blog de games, o “GameCoin” (www.gamecoin.com.br).

Contato: (31) 99245-0855

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