Carros com motor à diesel

Carros com motor à diesel: por que só nós não podemos ter?

Já vai longe o ano de 1976, mais precisamente no mês de novembro, quando o CNP (Conselho Nacional do Petróleo), através da Portaria nº 346, determinou que passava a ser proibido o uso do óleo diesel como combustível para veículos automotores que transportassem carga ou pessoas com menos de 1 tonelada de capacidade. Ou seja, todo veículo com menos de 1.000 kg de carga útil não poderia ser movido a diesel.

Na época, em plena crise mundial do petróleo iniciada três anos antes, em que o preço do “ouro negro” sextuplicou em três meses — não houve embargo, como alguns pensam —, a justificativa para a proibição era a de que o uso do precioso combustível em automóveis que não fossem estritamente dependentes do diesel, não seria mais permitido, dado que o diesel fazia tempo que era o derivado do petróleo mais consumido no Brasil, bem mais que a gasolina,  e era necessário conter seu consumo para não desequilibrar ainda mais a balança comercial brasileira

Como na torre de refino do petróleo os combustíveis vão saindo a medida que são refinados, é difícil para os técnicos, por exemplo, produzirem mais diesel e menos gasolina. Tudo sai nas devidas proporções, dependendo das características do petróleo que está sendo refinado. O medo, na época, era de que todos passassem a utilizar óleo diesel como combustível (que sempre tem um consumo menor), abandonando a gasolina, que iria sobrar nas refinarias como um dos produtos residuais do refino do petróleo. Foi uma forma encontrada pelas autoridades para equilibrar o consumo de gasolina e diesel de maneira que não sobrasse nem um, nem outro.

Pois bem, já se passaram 44 anos desde essa diretriz da ANP e, hoje, nosso país já é autossuficiente no consumo de petróleo, além de que, pelo menos teoricamente, não precisamos importar essa matéria-prima e seus derivados de lugar nenhum. Ora, se isso é verdade, por que é então que essa portaria da ANP de 44 anos atrás continua em vigor? Por que o consumidor brasileiro não tem o direito de escolher o combustível do seu veículo? Na Europa, por exemplo, algo em torno de 50% dos carros são movidos a diesel, com consumos que variam de 20 km/l a 40 km/l, graças à alta tecnologia desenvolvida nos modernos e atuais motores movidos a esse combustível, com comando eletrônico no sistema de injeção direta a partir de uma flauta única, mais conhecida pelo seu nome em inglês, common rail..

Por que aqui em nosso país não podemos ter acesso a essas modernas tecnologias e ficamos restritos a dupla gasolina-álcool? No passado, mais especificamente em meados dos anos 1990, tive oportunidade de participar de um movimento que visava a liberação do diesel para automóveis aqui, assim como existem vários hoje da categoria SUV, e por isso viajei a outros países para andar com carros diesel que eram produzidos no Brasil, mas proibidos de serem vendidos para os brasileiros, tudo por força da lei. Me lembro de estar na Argentina andando com VW Gol e Voyage ou na Itália com Fiat Elba e Prêmio, todos movidos a diesel e, acreditem, produzidos aqui mesmo em nosso país. Uma tremenda frustração!

Ainda em meados daquela década, fui ao sul da Espanha e lá pude avaliar o VW Lupo 3L. Esse pequeno e valente hatch subcompacto com motor turbodiesel 1,2-litro de três cilindros, algo como um pai do atual up!, era construído para não consumir combustível, e o 3L do seu nome dava a meta: consumir 3 litros de óleo diesel a cada 100 km, ou 33,3 km/litro na nossa maneira de exprimir consumo. Viajando até Madrid, descobri que essa meta do nome do carrinho era fácil de ser batida: em boas estradas, consegui médias de consumo sempre ao redor dos 40 km/l. Na época, foi um número que me deixou admirado, pois não sabia que essas marcas eram possíveis para um carro, e que, tenho certeza, em dias atuais seria facilmente batido com as novas tecnologias dos motores modernos.

Na década de 1980, houve tentativas de contornar a legislação: a própria Volkswagen, por exemplo, lançou, em 1981, uma Kombi cabine dupla com caçamba, anunciada com 1 tonelada de capacidade de carga, podendo receber, por isso, motor Diesel. Nesse caso, o motor era um 1,6-litro derivado da família MD, que produzia parcos 50 cv de potência e magros 9,5 m·kgf de torque máximo .O motor era de 1.588 cm³ (76,5 x 86,4 mm em vez de 79,5 x 80 mm do 1,6 a gasolina, também de 1.588 cm³).

Arrefecida a líquido, essa Kombi tinha o radiador posicionado na frente, com potentes ventiladores que permitiam um melhor arrefecimento do motor nos trânsito pesado. Nem é preciso dizer que, com sua capacidade de carga de 1.000 kg e apenas 50 cv, ela era terrivelmente lenta e temia as ladeiras.

Além da Kombi, esse motor foi adaptado em grande escala nas Saveiro por todo o país, claro que de uma forma irregular: se algum policial a parasse numa blitz, era apreensão e dor de cabeça para o motorista na certa. E existem muitas lendas urbanas de carros que teriam sido colocados à venda com motor diesel, para desencalhe de estoque de alguns fabricantes, mas isso não procede, pois eles não teriam sequer o número Renavam para poderem ser licenciados e emplacados.

A paulista Sulam, adaptadora de carrocerias da época, produziu alguns exemplares da Saveiro com cabine dupla, oferecidas com o motor 1,6 Diesel da Kombi e, na época, dizia-se ter uma carga útil de 1.000 kg para atender as exigências da Portaria, fato que nunca foi comprovado.

A lei de 1976 abriu uma outra exceção para o uso do diesel: o combustível era permitido desde que o veículo tivesse tração nas quatro rodas e câmbio com reduzida. Não sei se por acaso, essa era a configuração do Toyota Bandeirante. Naquela época, só ele apresentava essas características.

Teremos carros de passeio a diesel a venda no nosso país, com toda essa tecnologia e baixíssimo consumo? Infelizmente, nós não teremos acesso a essas maravilhas do mundo moderno, pelo menos por enquanto, e provavelmente vamos continuar sendo o único país do planeta com essa proibição. Coisas da nossa amada pátria…

 


 

 

Fotos: internet

 


 

 

 

Douglas Mendonça é jornalista na área automobilística há 46 anos.

Trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e foi diretor de redação da revista Motor Show até 2016. Formado em comunicação pela Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Engenharia Paulista (IEP).

Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e a Mil Quilômetros de Brasília em 2004.

 

 

 


 

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